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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os fins justificam os meios

O diretor Gabriel Mascaro decidiu convidar 125 pessoas muito ricas e proprietárias de coberturas a falar sobre este “modo de vida”. Apenas 9 delas aceitaram. O documentário anuncia uma curiosa lista em que essas pessoas estariam presentes, sem dar mais detalhes sobre onde ela se encontra ou como foi elaborada. Também não se diz nada a respeito da maneira como estes indivíduos foram abordados – de que maneira se convence uma pessoa riquíssima a falar de sua riqueza num documentário?
Dessas questões essenciais de ética, o filme não fornece detalhes. O que lhe interessa é o que essas pessoas têm a dizer. Neste sentido, o documentário se mostra riquíssimo, revelando uma visão bastante particular que estes moradores possuem das classes baixas, da noção de propriedade e de mérito. As frases de efeito se acumulam às dezenas, da mulher que acha os tiros da favela lindos, porque se parecem com fogos de artifício, passando pelo empresário que diz que merece a riqueza por ser um líder nato, ao filho mimado que diz que escreve “cobertura” em seu endereço para ser mais respeitado pelos amigos.
Entram em choque direto as noções de interior e exterior, de mérito e democracia, de liberdade e segurança. Os entrevistados se dizem seguros e livres dentro de seus diversos metros quadrados repletos de câmeras de segurança, ou então se sentem superiores e dominadores em relação aos andares de baixo, ou ainda dizem que sua riqueza é o fruto de um esforço que está ao alcance de qualquer um.
Mascaro conduziu todas essas pessoas não apenas a apresentarem suas vidas, mas a justificá-las, a explicar de onde vem a riqueza e porque as pessoas ao redor não possuem as mesmas oportunidades. Face a estas questões tão explícitas quanto complexas, todos fogem da “culpa burguesa” que o diretor parece querer atribuir a cada um deles. Defendem que o poder material é um presente divino, ou a ordem natural das coisas, ou ainda que ela não impede de praticar a caridade, “compensando” a desigualdade de oportunidades.
O grande problema de todas as frases exemplares extraídas desses entrevistados alienados e reacionários é justamente a maneira como se obteve o conteúdo procurado. Inicialmente, o documentário não admite que estas pessoas acreditam estar falando para um vídeo destinado aos países estrangeiros. Certamente suas reações teriam sido outras se conhecessem o uso real das imagens. Em seguida, Mascaro mantém o som da câmera ligada mesmo quando a entrevistada lhe pede para cortar, porque sente que “algo está sendo conduzido nisto tudo”.
Driblando os princípios da ética do documentário, o diretor parte do princípio que o fim justifica os meios – tudo vale para extrair frases tão absurdas daquelas pessoas cujas vidas já se considerava, desde o começo, absurdas. Mesmo um documentarista controverso como Michael Moore, que está muito longe de ser um exemplo de ética na imagem, deixa claro aos homens políticos republicanos que sua posição é contrária a que estes homens defendem.
O realizador usa metáforas, filma prédios de cima para baixo, de baixo para cima e ilustra a luta de classes em sua crítica mordaz a este modo de vida. Ele mantém um diálogo claro com o espectador, mas não partilha sua posição com os entrevistados. A ironia, o sarcasmo e a quase humilhação são desculpadas pelo realizador, que defende-se afirmando que uma das entrevistadas gostou muito do filme final, ou seja, ela não se sentiu ofendida. Esta era a mesma desculpa dada por Fernando Meirelles, por exemplo, quando dizia que Saramago havia gostado de sua adaptação de Ensaio Sobre a Cegueira.
Ora, tanto Meirelles quanto Mascaro sabem muito bem que os filmes não foram feitos para seus entrevistados ou autores do livro de origem. Um Lugar ao Sol foi feito para o público, apesar dos entrevistados, que são meros alvos fáceis de quem se retira frases suculentas. A ingenuidade de um dos entrevistados não isenta o diretor de responsabilidade – pelo contrário, deixa ainda mais claro que estas pessoas não estavam conscientes do discurso que seria articulado a partir de suas imagens.

Os meios são os fins
Em Pacific, o diretor Marcelo Pedroso acompanhou algumas viagens do cruzeiro homônimo que vai de Pernambuco a Fernando de Noronha. Percebendo quais pessoas gravavam imagens da viagem, ele convidou-as a ceder seus materiais para um documentário. Não se dá mais informações sobre a abordagem ou sobre a reação dos viajantes, mas esta metodologia é apresentada desde o início, como ponto de partida indispensável à compreensão do projeto.
O que se segue, portanto, são imagens amadoras, de baixa qualidade, instáveis e sempre deslumbradas com os arredores. Acima de tudo, são imagens que portam um discurso involuntário sobre o consumo, já que estes momentos íntimos (pessoas na cama, dançando, dormindo, se maquiando) não tinham o intuito de serem partilhados. A montagem pretende dar forma ao conjunto, em ordem cronológica, seguindo a chegada ao navio, a descoberta das regalias, das festas, a noção de espaço, de privilégio e de mérito. Seria interessante saber qual era a priori o destinatário destas imagens – se os viajantes pretendiam vê-las sozinhos ou mostrá-las a amigos e família, e em qual contexto.
De qualquer modo, instaura-se com Pacific a rara noção de autor cinematográfico como aquele que organiza o discurso, mas não necessariamente capta as imagens. O autor aqui é o montador, o diretor, e não as pessoas que gravaram seus passeios. As imagens, para elas, servia como prova de pertencimento, como o ça a été do qual falava Barthes, um documento de que essas pessoas de fato estiveram onde estiveram e viram o que viram. A fascinação precisa ser registrada, partilhada, inclusive como sinal de status. É preciso que colegas, familiares e outros vejam essas imagens e compreendam de fato todo o luxo pelo qual os viajantes pagaram. “Corre, filma o golfinho!”, diz um deles. A imagem é realmente vista como sinal de distinção.
Face a este material já existente, o diretor decidiu não acrescentar nenhuma narrativa ou depoimento. A montagem fala por si mesma, ela retrata muito bem o kitsch, o excesso e principalmente o imperativo de diversão que Adorno citava como inerente a qualquer sociedade do hedonismo. Além de mostrar o que viveram, estas pessoas precisam (se) convencer de que se divertiram, de que o dinheiro foi bem gasto e transformado num prazer proporcional ao preço estipulado pelo cruzeiro. Eles criam uma imagem de si mesmos alegres, sorridentes, algo que se satura ao longo de 80 minutos de documentário; mesmo que esta saturação seja um elemento indispensável ao próprio discurso crítico.
O que estas pessoas acharam do filme final? Não se sabe, talvez seja estranho para elas verem suas caras e seus beijos espontâneos projetados para dezenas de milhares de pessoas. Talvez a imagem apenas reconforte o instinto narcisista. De qualquer modo, o kitsch, os excessos e a construção da imagem da riqueza pode tanto ser interpretada desta maneira, tanto ser vista como uma colagem simples de vídeos de viagem. A ambiguidade do discurso joga a favor do filme, que deixa ao espectador construir o sentido deste projeto.
Este é o inverso de Um Lugar ao Sol, no qual não se deixava muita dúvida sobre o olhar cínico que o diretor portava sobre suas imagens. Mascaro obtém certamente frases e momentos muito mais potentes, mais emblemáticos e representativos, mas paga um preço alto por isso, tornando seu projeto mais do que questionável. Já Pedroso, obviamente, também intervém em seu material, mas pretende colocar em paralelo o olhar dos indivíduos com o seu próprio, aumentando o leque de interpretações deixadas à disposição do espectador.

Um Lugar ao Sol (2009)Filme brasileiro dirigido por Gabriel Mascaro.
Pacific (2009)Filme brasileiro dirigido por Marcelo Pedroso.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Hoje na História: 1469 - Nasce o italiano Nicolau Maquiavel

O filósofo, escritor, político e historiador italiano Niccoló Machiavelli – Nicolau Maquiavel – nasceu em 3 de maio de 1469. Patriota durante a vida toda e acérrimo defensor de uma Itália unificada, Maquiavel tornou-se um dos pais da moderna teoria política.

Maquiavel entrou para a política em sua terra natal, Florença, quando tinha 29 anos. Como secretário de Defesa, se distinguiu ao executar políticas que acabaram fortalecendo Florença politicamente. Logo lhe foram designadas missões diplomáticas em nome do Principado florentino para se encontrar com personalidades centrais da época, como o rei Luis XII da França e talvez a mais importante para Maquiavel, o príncipe dos Estados Pontifícios, Cesare Borgia. O hábil e astucioso Borgia inspirou mais tarde o personagem título do famoso e seminal tratado de Maquiavel O príncipe (1532).

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Frases Imortais de Maquiavel



"As armas devem ser usadas em última instância, onde e quando os outros meios não bastem."(Nicolau Maquiavel )

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

É mais seguro ser temido do que ser amado?


Você, como eu, deve ter percebido o crescimento da violência em nossa sociedade. Acontece que, para minimizar a violência estamos nos tornando cada vez mais violentos. Isso não é novo, apenas ganha novo status; apenas evidencia uma das características mais marcantes do ser humano: a crueldade que produz violência. O ser humano é cruel, pois produz situações de maldade e age violentamente de forma intencional. Não digo isso baseado apenas naquilo que os noticiários nos mostram a respeito dos chamados bandidos. Digo a partir da anuência das pessoas após um tiro, planejado pela polícia, eliminando um meliante. Em nome da paz e da segurança as pessoas agem com violência, demonstrando que essa é uma instituição humana: contra a violência que nos aterroriza, usamos violência.
Aliás, isso foi ensinado por Maquiavel, em o Príncipe. Ao explicar porque o príncipe deve ser temido ao invés de amado, diz que: “é muito mais seguro ser temido do que amado. Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho”. Se os homens são ingratos, então deve-se guia-los não com benevolência, mas com o chicote na mão. Então, por medo, aceitarão a violência e ela se institucionaliza. O medo do chicote produz uma aparente harmonia e aquela sensação de alegria ao ver o outro ser punido-agredido por quebrar a harmonia.

Isso nos arremete ao “Crepúsculo dos Ídolos” livro em que Nietzsche faz o seguinte comentário: “ver sofrer, faz bem; fazer sofrer melhor ainda: ai está um duro princípio, mas um princípio fundamental antigo, poderoso, humano, demasiadamente humano”. Que são os atos violentos se não uma expressão da maldade humana? Trata-se de um princípio, demasiadamente humano! E se isso é feito intencionalmente, de forma premeditada, indica a presença da crueldade.

O mesmo pensador alemão, chamado de anticristo, numa anotação em seu registro de óbito da capela do cemitério em que está enterrado, radicaliza ainda mais a afirmação da maldade humana. Afirma ser esse um ingrediente produtor de prazeres. Ou seja, produzir maldades produz prazeres... diz o pensador: “É verdade que repugna à delicadeza, mais ainda, a hipocrisia de animais domesticados (quero dizer os homens modernos, quero dizer nós) representar-se com todo o rigor até que ponto a crueldade era alegria festiva na humanidade primitiva e entrava como ingrediente em quase todos os seus prazeres”. No mesmo livro, na mesma página, no mesmo parágrafo, Nietzsche continua: “Indiquei já de maneira circunspeta a espiritualização e a ‘deificação’ da crueldade que não cessa de crescer e atravessa toda a história da cultura superior”.

Alguém, desavisado, poderia perguntar: qual é essa “cultura superior” que tem feito a “espiritualização e a ‘deificação’ da crueldade”? Qual é a sociedade em que se vê o crescimento da crueldade? Inicialmente a cultura alemã, à qual o pensador analisa e, por extensão, a sociedade cristã oriental em que todos estamos inseridos.

Não gostamos de sofrer, mas nos divertimos com o sofrimento alheio. Uma afirmação deste tipo pode parecer repugnante, mas como, de outra forma, explicar a crescente onda de violência, desde o colo das famílias até as mais altas rodas sociais? Nada escapa ao crescendo da violência. E, então, para reprimi-la, usamos de violência. Explico-me: os norte-americanos agrediram a vários povos orientais – violentando suas culturas, seus governos... – em nome do lucro. Alguns desses povos reagiram derrubando as “torres gêmeas” (em setembro de 2001). A contra reação norte americana foi a guerra. Contra a guerra, constantes atentados terroristas... (evidentemente não estamos analisando, aqui, a crescente e lucrativa indústria da guerra, uma demonstração de que a violência, além de fazer bem... e dá lucro).

Outro exemplo: a população urbana cresce. Não crescem as vagas em empregos. Muita gente, na cidade, vive de subemprego, com dificuldades crescentes... aprece o traficante dizendo que distribuir droga dá lucro e cria uma rede de distribuição com gente desempregada ou esfomeada. A reação da sociedade é atiçar a polícia contra eles. Estabelece-se uma guerra urbana: um atira de um lado, recebendo como resposta outro tiro... amplia-se a espiral da violência ... e jornais e TV e rádio e internet transmitem, ao vivo, as cenas de violência, para um público sedento de sangue. E as pessoas se satisfazem, se sentem gratificadas quando a polícia elimina o meliante, em transmissão ao vivo, em cadeia nacional.

É claro que, como disse Nietzsche, no trecho acima, isso pode parecer repugnante (como ele diz? “repugna à delicadeza”). O fato é que a mídia sobrevive da notícia e o consumidor da noticia – a população – está sedenta de violência e crueldade, para se divertir. Compare o tempo destinado às chamadas “boas” noticias em relação ao tempo destinado às tragédias. Diante dessa diferença, em favor da desgraça, muitos diriam que a mídia “parece que gosta de divulgar coisas ruins”. Mas a mídia transmite o que as pessoas gostam de ver! As pessoas gostam, preferem, as tragédias.

Então não podemos dizer que é repugnante o que a mídia faz, mas é repugnante a tendência da sociedade em se divertir assistindo a desgraça dos outros. É verdade que nos emocionamos com cenas e situações em que o altruísmo se manifesta. Mas, não é menos verdade que nos detemos por horas assistindo a desgraça alheia. Podemos até nos solidarizar com a vítima, mas fazemos isso para mais nos sentirmos superiores; para nos colocarmos em posição privilegiada pois “ver sofrer faz bem”... nos lembra que estamos bem! E essa é a face cruel da violência.

Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo, Historiador.

Fonte:Nivaldocordeiro

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Frases Imortais de Maquiavel


"Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis".

domingo, 13 de setembro de 2009

Frases Imortais de Maquiavel


"É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado." (Maquiavel)