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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Nicolau Maquiavel

Maquiavel escreveu O príncipe em 1513, em sua propriedade nos arredores de Florença, na região italiana da Toscana. Naquele ano, depois da dissolução do governo da cidade e do retorno da família Médici ao poder, Maquiavel foi preso, acusado de conspiração. Perdoado pelo papa Leão X, ele se retirou da vida pública e passou a escrever suas grandes obras. O príncipe foi publicado postumamente, em 1532.
O contexto histórico em que Maquiavel escrevia era de grande instabilidade política. O exercício do poder e sua manutenção já não dependiam apenas da hereditariedade e dos laços de sangue. Por isso, o autor escreve um tratado sobre a conduta do príncipe, sobre as melhores formas de o soberano tomar o poder e conservá-lo.
O autor vai colher na História variados exemplos para comprovar seus pontos de vista, a começar pela conduta de alguns de seus contemporâneos, como César Borgia, Francesco Sforza e o papa Júlio II. Mas Maquiavel recorre também ao conhecimento de outras épocas, como a Antiguidade e a Idade Média, e à sua vastíssima erudição sobre os romanos, os gregos e outros povos, de diversas regiões.
Em estilo direto, límpido e por vezes levemente irônico, Maquiavel recomenda ao soberano cultivar certas qualidades - ou, se não for possível, que pelo menos aparente ter virtudes, pois ostentá-las é útil para manter o poder. As cinco principais qualidades de caráter aconselhadas ao soberano dizem respeito ao seu espírito: ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso. Ainda assim, reconhece o autor, para preservar o Estado muitas vezes é necessário operar contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião.
Algumas concepções de Maquiavel parecem paradoxais. É o caso também das ideias sobre a conduta do príncipe em relação a seus súditos e ao povo. O autor chama a atenção para a necessidade de oprimir os primeiros, mas também reafirma a necessidade de ser querido pelo povo e protegê-lo. Apesar de contraditórias, suas ideias se harmonizam quando se tem em vista que os dois conceitos mais importantes do livro são "fortuna" e "virtude".
Segundo o autor, um bom príncipe é aquele que sabe aproveitar os momentos de fortuna, isto é, a sorte e os momentos propícios à ação. Não se trata, porém, unicamente de acaso ou de oportunidade. É necessário também virtude, ou seja, caráter e habilidade. Como diz o próprio Maquiavel, ao Príncipe é necessário "que ele tenha um espírito disposto a voltar-se para onde os ventos da fortuna e a variação das coisas lhe ordenarem; e [...] não se afastar do bem, se possível, mas saber entrar no mal, se necessário".

1. Qual é a principal distinção que Maquiavel faz sobre o caráter dos principados? No que consiste a fortuna e a virtude, características que determinam o sucesso de um príncipe na tomada e manutenção do poder?
Maquiavel distingue os principados em hereditários, nos quais a linhagem familiar e de sangue determina a sucessão do poder, e em principados novos, isto é, conquistados por armas próprias ou alheias. Na prática da guerra e no exercício do poder, os príncipes são guiados pela fortuna, ou seja, pela sorte e pelas circunstâncias, ou por virtude, isto é, por seus méritos, valores e qualidades. (capítulo I)


2. Por que, segundo Maquiavel, é mais fácil manter o poder nos Estados herdados e sujeitos ao sangue de seus príncipes do que nos Estados novos? Por que nestes é inevitável ao príncipe oprimir seus súditos?
Porque nos principados em que a sucessão do poder é hereditária basta não infringir a ordem sucessória da estirpe e saber lidar com os imprevistos. O soberano natural, segundo Maquiavel, é aceito por seus súditos mais facilmente. Uma vez guindado ao poder, o príncipe que assumiu graças aos seus laços de sangue se manterá soberano com mais tranquilidade, a menos que uma força maior o destitua. A continuidade do poder também tende a apagar as demandas por inovações e mudanças, as quais geram intranquilidade. Já os principados novos são mais instáveis, pois o príncipe que tomou o poder será imediatamente avaliado pelos novos súditos, que acreditam poder melhorar de condição se pegarem novamente em armas contra o soberano. O príncipe, assim, precisará submeter os novos seguidores. Ao mesmo tempo, o príncipe não pode apenas oprimi-los, pois é preciso agradá-los e honrar a dívida para com os provincianos que dominou. (capítulos II e III)


3. Quais as principais dificuldades de um soberano que conquista ou anexa outro Estado? Quais são as condições que determinam o sucesso de um governante de um principado misto?
As principais dificuldades são os contrastes entre as línguas, os costumes e as leis entre o principado original e o novo. Por isso, é preciso grande habilidade para manter um principado misto. Um dos meios mais eficazes para conservar o poder sobre o novo principado é que o conquistador vá habitar as terras anexadas, tornando mais seguro e mais durável seu domínio. A presença do soberano evita que seus prepostos ou representantes espoliem a província e permite que os súditos recorram diretamente ao governante. Para o autor, é preciso extinguir a linhagem de sangue do príncipe anterior e não alterar as leis vigentes nem o regime de impostos. Assim, em pouco tempo, o principado novo será totalmente incorporado ao antigo. (capítulo III)


4. Apesar de ter se pautado pela ponderação e pelo diálogo em sua trajetória intelectual e política, Maquiavel tem uma visão contundente a respeito da guerra. Segundo ele, por que não é possível evitar a guerra?
Maquiavel diz que o desejo de conquista é algo natural e que a guerra não se evita, apenas se adia em favor de outrem. Portanto, já que ela é inevitável, e postergá-la só traz vantagens ao adversário, ele recomenda que, a fim de evitar um conflito prejudicial, jamais se deve deixar que um distúrbio se alastre. É um erro empreender uma guerra quando ainda não se tem força para tanto. (capítulo III)
Mas o príncipe não deve ter outro objetivo nem outro pensamento que não a guerra, pois ela é a arte de quem comanda, uma atitude esperada e inerente ao exercício do poder. É por ela que se mantêm os que já nasceram príncipes, mas também chegam ao poder os homens de fortuna pessoal. (capítulo XV)
O autor recomenda ainda que o príncipe cultive a fama de cruel, pois isso ajuda a manter o exército unido e disposto ao combate. (capítulo XVII)
A guerra, além disso, traz prestígio e não há nada que faça um príncipe mais estimado que empreender grandes campanhas militares para legar memoráveis exemplos de si mesmo. (capítulo XXI)


5. Maquiavel expõe dois modos de passar de homem privado a príncipe, sem que se deva atribuir tudo à fortuna ou à virtude. Quais são eles? Explique.
Há casos em que se ascende ao principado por meios "nefandos e celerados" e casos em que um homem comum se torna príncipe de sua pátria "graças ao favor de outros concidadãos". No primeiro caso, incluem-se os soberanos que tomaram o poder por atitudes criminosas, como massacres, assassinatos, traições, crueldades e atrocidades. No segundo caso, por favor de seus concidadãos, o soberano constitui um "principado civil". Para chegar a ele, não é preciso virtude nem fortuna, mas astúcia e apoio popular ou dos poderosos. Segundo Maquiavel, esta é uma característica de todas as cidades assistir a tendências opostas: de um lado, o povo, que não quer ser comandado nem oprimido pelos poderosos; de outro os poderosos, que querem comandar e oprimir o povo. Segundo o autor, esses dois desejos antagônicos trazem uma das seguintes consequências: principado, liberdade ou desordem. (capítulos VIII e IX).


6. Apesar de não se mostrar favorável ao modo de obter o poder por meios criminosos, o autor tece considerações sobre os procedimentos para manter-se no poder, mesmo nesses casos. O que ele recomenda a um príncipe usurpador?
Ao tomar um Estado, o príncipe usurpador deve praticar a violência de um só golpe, para não ter de renovar as atitudes de opressão. Com isso, tranquiliza os súditos e os seduz com benefícios. Para o autor, as injúrias devem ser executadas todas de uma só vez, com brevidade, para que "ofendam menos ao paladar". Já os benefícios devem ser feitos aos poucos, "para que sejam mais bem saboreados". (capítulo VIII)


7. Por que o autor evita debruçar-se sobre os chamados principados eclesiásticos?
Porque, segundo ele, esses principados são sustentados por leis antigas, radicadas na religião. São tão poderosos que conseguem conservar seus príncipes no poder não importa como estes se comportem ou vivam. São também governados por razões superiores, "que a mente humana não alcança". Uma vez que são louvados e mantidos por Deus, para Maquiavel discorrer sobre eles seria "presunçoso" e "temerário". (capítulo XI)


8. Nos capítulos XII, XIII e XIV, o autor chama a atenção mais uma vez para a importância da guerra e descreve os principais tipos de tropa de que se pode dispor. Quais são elas? Segundo o autor, é preferível dispor de armas próprias ou mercenárias?
As armas com as quais um príncipe defende seu Estado ou são próprias, ou são mercenárias e auxiliares, ou uma mistura de ambas. As mercenárias e auxiliares são aquelas que combatem não por lealdade, mas por interesse ou pelo soldo, isto é, pelo pagamento. As armas auxiliares - igualmente ruins e até mais perigosas, segundo o autor - são aquelas solicitadas a outro poderoso para que o defendam. As armas próprias são aquelas compostas de súditos, de cidadãos ou de vassalos. Para o autor, as tropas mercenárias são inúteis e perigosas, pois desunidas, ambiciosas, indisciplinadas e infiéis. Não trazem segurança nem estabilidade. Com essas armas, "quanto mais se adia o combate, mais se adia a derrota". Por isso, o autor diz que é preferível dispor de armas próprias, pois sem elas nenhum principado estará seguro; ao contrário, fica inteiramente à mercê da fortuna.


9. O que o autor sugere ao príncipe nos tempos de paz?
Recomenda nunca se manter ocioso. Sugere conhecer bem o próprio território, o que permite aprender a localizar o inimigo, montar acampamentos, conduzir os exércitos, organizar as expedições e, em situação vantajosa, assediar outras cidades. Aproveitando esse período com engenho, ele irá agir melhor na adversidade e, quando a fortuna mudar, estará preparado para resistir. Recomenda, ainda, a prática da caça e o exercício da mente: ler obras de história e nelas examinar as ações dos homens ilustres, ver como eles conduziram as guerras e analisar as causas de suas vitórias e derrotas. (capítulo XIV)


10. Como a condição humana não permite, muitas vezes, que o príncipe tenha todas as qualidades necessárias ao exercício da função, o autor recomenda evitar certos vícios que coloquem em risco o governo. Quais são esses vícios?
Alguns dos principais vícios ou defeitos que ameaçam o príncipe são: ser miseráveis ou avaros, rapaces, cruéis, desleais, efeminados e pusilânimes, soberbos, lascivos, inflexíveis e incrédulos. (capítulo XV)


11. O que recomenda o autor a respeito da cobrança de impostos e da condição de liberal?
Maquiavel considera vantajoso ao príncipe ser liberal. Mas diz que, se essa prática tiver objetivo apenas de alcançar reputação, pode causar transtornos, pois a liberalidade excessiva faz o príncipe ser desprezado ou odiado, algo que ele deve evitar acima de tudo. Segundo o autor, para manter a fama de liberal é preciso lançar mão de todo "fausto" (luxo) possível. Isso obriga ao príncipe consumir muitos recursos, sobrecarregando a população de tributos e arrecadações. Assim, a liberalidade em excesso irá deixar os súditos cada vez mais pobres. Por isso, se for prudente, ele não deverá se importar com a fama de avarento, em benefício dos cidadãos. (capítulo XVI)


12. Para Maquiavel, é preferível ao príncipe ser amado ou ser temido?
Segundo o autor, todos os soberanos gostariam de ser amados e temidos. Porém, é difícil conciliar as duas coisas. Assim, é mais seguro ser temido que amado, pois o vínculo de amor entre os homens é frágil, já que mantido por reconhecimento e passível de ser rompido pelo egoísmo. Nos momentos favoráveis, o príncipe age com benevolência e os súditos tendem a amá-lo. Nos momentos de dificuldade, porém, é comum aos súditos passar à revolta. O temor, assim, é mantido com mais segurança, por conta do medo que os homens têm da punição. É preciso, porém, inspirar temor sem suscitar o ódio. (capítulo XVII)


13. O que o autor recomenda para que o príncipe não desperte o ódio dos cidadãos?
O autor recomenda não cobiçar as mulheres nem os bens de seus concidadãos. Especialmente evitar a cobiça dos bens, pois os homens "se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio". (capítulo XVII)


14. Segundo Maquiavel, os homens são essencialmente bons ou maus?
Para o autor, os homens são essencialmente maus. Em geral, são ingratos, volúveis, fingidos, dissimulados, avessos ao perigo e gananciosos. (capítulo XVII)


15. Por que o príncipe precisa se valer do animal e do homem que há dentro dele? A quais animais o autor se refere metaforicamente para exprimir as atitudes de astúcia e força?
Segundo Maquiavel, existem duas "matrizes de combate": o combate por meio das leis, próprias dos homens; e o combate pelo uso da força, própria dos animais. Como nem sempre a primeira matriz basta, é preciso recorrer à segunda. O autor associa a astúcia à raposa e a força ao leão. (capítulo XVIII)

16. No capítulo XXI, Maquiavel recomenda algumas atitudes do príncipe para com o cotidiano da cidade e a vida civil e econômica. O que o soberano deve encorajar na vida de seus súditos?
O príncipe deve oferecer hospitalidade aos homens virtuosos e aos artistas. Deve encorajar os cidadãos a exercer seus ofícios no comércio, na agricultura e em outras atividades, assegurando o direito à propriedade e incentivando a abertura de novos negócios, sem que os impostos sejam um empecilho à atividade comercial. Deve promover festas e espetáculos populares e periodicamente se reunir com a comunidade, conhecendo as corporações e os bairros, dando exemplo de humanidade e munificência (generosidade), mantendo, porém, a majestade de seu posto.

17. No Capítulo XXV, Maquiavel discorre sobre a relação entre a fortuna e o livre-arbítrio, ou seja, a capacidade humana de reger o próprio destino. A que o autor compara a fortuna?
O autor diz que muitos têm a convicção de que o mundo é governado apenas pela fortuna e por Deus, sem que os homens possam mudá-lo. Por isso, as pessoas acham que não vale a pena lutar contra o curso das coisas, deixando-se conduzir pela sorte e pelo destino. Entretanto, diz Maquiavel que a fortuna determina apenas parte das ações humanas e que outra parte é governada pelo livre-arbítrio. O autor compara a fortuna a um rio caudaloso e devastador, que com suas águas enfurecidas alaga planícies, derruba árvores e faz ruir construções. Com isso, diz que a fortuna demonstra toda sua potência, se a virtude não lhe colocar freios. Portanto, o príncipe não pode se apoiar inteiro na fortuna, pois ele se arruinará tão logo as circunstâncias mudem. Compara, ainda, a fortuna à mulher. Na condição de mulher, segundo Maquiavel, a fortuna é favorável aos jovens, que por serem menos respeitosos, mais ferozes e mais audaciosos a comandam mais facilmente. Para dominar a fortuna, portanto, é melhor ser impetuoso que prudente.


Leituras recomendadas

Biografia de Nicolau Maquiavel. Roberto Ridolfi. Musa Editora, 2008.
Maquiavel passo a passo. Newton Bignotto. Jorge Zahar Editora, 2003.
Maquiavel. Coleção Os Pensadores. Trad. de Lívio Xavier. Editora Nova Cultural, 2003.
Maquiavel no Inferno. Sebastian de Grazia. Companhia das Letras, 1993.


Fonte:Companhiadasletras

terça-feira, 30 de março de 2010

Fichamento Da Obra “O Príncipe” De Maquiavel

Capítulo I
Classifica-se o Estado em dois tipos: repúblicas e principados.
Os principados podem ser hereditários ou fundados recentemente, que podem ser de todo novos ou anexações.
A república não é objeto de discussão na obra.

Capítulo II

Destaca-se a menor dificuldade em manter Estados herdados, visto que os súditos estão acostumados à família reinante.
Maior dificuldade se encontra em manter monarquias novas. Deve-se evitar, neste caso, transgredir os costumes tradicionais e saber adaptar-se a circunstâncias imprevistas.

Capítulo III

Fala-se da dificuldade em manter os Estados novos, visto a facilidade com que os homens mudam de governantes, e, a esperança de melhoria acaba os levando a levantar em armas contra os atuais.
Para que se estabeleça num Estado novo, deve-se observar alguns pontos.
Primeiramente, é necessário o apoio dos habitantes do território para poder dominá-lo.
Note-se que um território nunca volta a ser perdido com a mesma facilidade. A rebelião pode até trazer resultados positivos como o fortalecimento de sua posição.
De preferência o soberano deve estar presente, pois desta maneira os distúrbios são rapidamente percebidos e corrigidos.

Capítulo IV

Destaca-se que não haverá rebelião se a linha política for mantida.
No que diz respeito a conquistas, o Estado dirigido por um único soberano é difícil de conquistar e fácil de manter. Já o Estado governado por muitas pessoas é fácil de conquistar e difícil de conservar.
No primeiro tipo citado, para conquistar o Estado, basta aniquilar o príncipe e sua família, ao passo que no outro não basta apenas estes, mas também os nobres.

Capítulo V

Segundo o autor ao conquistar um Estado regido por leis próprias, há três modos de mantê-lo: arruiná-lo, habitá-lo, ou permitir que continuem vivendo com suas próprias leis, mas pagando tributos e organizando um governo composto por pessoas amigas.
No entanto, o método mais seguro é a destruição, pois os habitantes sempre terão motivos para lutar em nome da liberdade.

Capítulo VI

Aqueles que se tornam príncipe por seu valor conquistam seus domínios com maior dificuldade, todavia os mantêm mais facilmente; as dificuldades, então, surgiriam na introdução de inovações. No caso de introduzir inovações, porém, é mais seguro e prudente que as faça por meios próprios, pois aqueles que dependem da ajuda de outrem sempre falham, não chegando a lugar algum. Introduzidas as mudanças, as dificuldades residirão, agora, em mantê-las.

Capítulo VII

Os que se tornam príncipes tão-somente pela sorte têm dificuldade para manter o poder, embora tenham-no conseguido sem grandes dificuldades. A manutenção do poder ficará na dependência da mesma sorte que o levou a ele.
Evidentemente que os Estados criados subitamente não têm raízes sólidas, de modo que são facilmente derrubados, a menos que o príncipe tenha virtudes. A solução é preparar os alicerces do poder antes de alcançá-lo, pois depois representará grande esforço e perigo.

Capítulo VIII

Pode-se chegar ao poder a partir ou a favor de atos criminosos. No entanto, deve-se tomar cuidado, pois atos criminosos podem conduzir ao poder e não à glória. A crueldade pode ser usada de duas formas: na primeira, usa-se bem quando utilizada toda sorte de crueldade de uma só vez, para garantir o poder e para que as pessoas se satisfaçam com as inovações; de outra maneira, utiliza-se mal quando no começo é pouca, mas aumenta com o tempo.

Capítulo IX

Governo civil vem a ser aquele em que o cidadão se torna soberano por favor de seus concidadãos; neste caso não dependerá apenas do valor ou da sorte, mas da astúcia afortunada. Este governo é instituído pelo povo ou pela aristocracia, sendo que aqueles que são ajudados pelos ricos têm maior dificuldade, uma vez que estes ficam ao lado de quem oferecer maiores vantagens, não sendo de todo fiéis.

É mais difícil satisfazer a nobreza através da conduta justa, sem causar prejuízo aos outros, uma vez que esta só quer oprimir, ao passo que o povo somente deseja evitar a opressão. Por isso é mais prudente confiar no povo neste caso; no entanto, nesta hipótese, deve-se manter a estima do povo, o que se faz unicamente protegendo e não oprimindo.

Capítulo X

Ao examinar as qualidades e avaliar a força dos Estados, deve-se considerar se os príncipes podem se manter no poder por si mesmos ou se só podem se manter no poder com auxílio alheio.
Note-se que o príncipe que é senhor de uma cidade poderosa, e não se faz odiar, não poderá ser atacado; e mesmo se o for, o assaltante não sairia glorioso, mesmo porque um príncipe corajoso e poderoso saberá sobrepor-se a tais dificuldades.

Capítulo XI

Os Estados eclesiásticos são aqueles conquistados por mérito ou sorte, mas não precisa de nenhum destes para mantê-lo, visto que são sustentados por antigos costumes religiosos. Somente estes Estados são seguros e felizes.

Capítulo XII

A base principal de todos os Estados devem ser as boas leis e os bons exércitos.
As tropas mercenárias, neste contexto, não oferecem posição firme e segura, pois os soldados são desunidos, ambiciosos, indisciplinados e infiéis.

Portanto, só os príncipes e as repúblicas armadas, em que respectivamente o príncipe pessoalmente ou um cidadão da república comandam as forças armadas, obtêm grandes progressos, pois as forças mercenárias só sabem causar danos.

Capítulo XIII

As tropas auxiliares podem ser em si mesmas eficazes, mas são sempre perigosas para os que dela se valem. Isto ocorre porque, apesar de unidas, são obedientes a outrem, por isso não proporcionam conquistas.
Assim, é preferível perder com tropas próprias a vencer com tropas alheias.

Capítulo XIV

A guerra deve ser o objetivo ou o pensamento principal do príncipe, pois através dela um príncipe pode perder sua posição de soberano e também ela torna possível a homens comuns galgar a posição de soberanos.
Estar desarmado, assim, significa perder a consideração, principalmente por parte dos soldados. Mesmo em tempos de paz não deve se afastar dos exercícios bélicos.

Capítulo XV

O príncipe deve se ater ao que se faz e não ao que deveria ter sido feito. Ainda, usar a bondade apenas quando e se necessário. Deve também ter prudência necessária para evitar escândalo provocado por vícios que poderiam abalar seu reinado e saber quais os que trazem como resultado o aumento da segurança e o bem-estar.

Capítulo XVI

A liberalidade, quando praticada de modo a ser vista por todos, prejudica o príncipe.
Quem quiser ganhar reputação de liberalidade, despenderá de muita riqueza; no entanto, não deverá esbanjar de seus próprios recursos, pois isso trará prejuízo, o que não acontecerá se esbanjar a riqueza dos outros. Deve cuidar, ainda, para não ser tido como miserável.

Note-se que para os que já são príncipes a liberalidade pode ser prejudicial, ao passo que para os que ainda não são e para os que vivem de roubo, ela se faz necessária.

Capítulo XVII

É preferível ser considerado clemente a ser considerado cruel, porém a reputação de cruel não deve incomodar se o objetivo for manter o povo unido e leal. Os mais novos no poder devem ter reputação de cruel, visto que os novos Estados oferecem muitos perigos.
Não se deve ter medo, deve ter prudência, equilíbrio e humanidade, porém na opção entre ser amado e temido, o príncipe deve optar por ser temido; fazer-se temer, porém sem ganhar o ódio. Deve-se ainda manter tropas unidas e dispostas com fama de crueldade.

Capítulo XVIII

Os príncipes que não respeitam a palavra podem superar os que respeitam; assim, o príncipe não deve agir de boa-fé se isso for contra seus interesses, por isso além de forte deve ser astuto. Não se faz necessário que o príncipe tenha qualidades, mas deve aparentar ter, principalmente a aparência de religiosidade. O príncipe deve evitar se desviar do bem e praticar o mal se necessário.

Capítulo XIX

O príncipe deve evitar ser odiado e desprezado. O que mais faz o príncipe ser odiado é a usurpação dos bens e mulheres do súdito. Um homem esquece mais rápido uma morte do que a perda de um bem.
Deve-se acautelar quanto aos súditos e as potências estrangeiras. A situação interna permanecerá tranqüila se não for perturbada por conspirações e um dos mais poderosos remédios contra as conspirações é não ser odiado pela massa popular; o conspirador acredita sempre que a morte do soberano satisfará o povo.

Assim, o príncipe, embora não possa evitar de ser odiado por algumas pessoas, deve buscar em primeiro lugar evitar o ódio das massas e se não conseguir, evitar o ódio dos poderosos.

Capítulo XX

O príncipe não pode desarmar seus súditos, pelo contrário, estando eles desarmados, deve armá-los, pois esses braços armados pertencerão ao monarca. Além do mais, desarmar os súditos pode ofendê-los. O desarmamento deve ocorrer apenas no caso de anexação.
Note-se que quando o inimigo se aproxima, a fração mais fraca aderirá a ele. Superar oposições e inimizades gera e incrementa a grandeza.

O autor destaca que o príncipe que temer aos seus súditos deve construir fortalezas, no entanto, mais vale a amizade e a estima dos cidadãos, que fortalezas.

Capítulo XXI

O príncipe deve ser estimado, dar grandes exemplos e prometer grandes empreendimentos. Deve procurar em todas as suas ações conquistar fama, grandeza e excelência, ser amigo ou inimigo declarado, evitando a neutralidade. Devem, também, demonstrar apreço pelas virtudes, dar oportunidade aos mais capazes e honrar os excelentes em cada arte, além de incentivar os cidadãos a praticar pacificamente sua atividade.

Capítulo XXII

A escolha dos ministros por parte do príncipe é de grande importância. Deve escolher homens eficientes e fiéis, que compreendam as coisas por si só. Evitar os ministros ruins, ou seja, aqueles que se preocupam mais consigo mesmo.

Capítulo XXIII

Deve-se evitar aduladores. Os conselheiros escolhidos devem ser sábios que dizem com plena liberdade a verdade, quando forem e sobre o que forem consultados; os aduladores fazem com que o príncipe aja precipitadamente. Note-se que o príncipe que não é sábio por si só, não poderá ser bem aconselhado.

Capítulo XXIV

Os príncipes novos têm sua conduta observada muito mais que um antigo; por isso devem fortalecer o Estado com boas leis, boas armas e bons exemplos, além de serem simpáticos ao povo e garantir-se contra os nobres.
Destaque-se que só são boas, seguras e duráveis aquelas defesas que dependem exclusivamente de nós, e do nosso próprio valor.

Capítulo XXV

Não se deve deixar que o acaso decida; basear-se apenas na sorte pode trazer a ruína quando esta mudar.
Deve-se agir de acordo com as circunstâncias. Cada época e cada lugar requerem um caminho diferente a seguir para alcançar determinados objetivos; assim, mudança de circunstâncias e tempos requer uma adequação para não trazer a ruína.

Capítulo XXVI

Por fim, não há nada melhor do que erguer-se das ruínas para mostrar sua força e seu valor.


SANDRA VAZ DE LIMA - Perfil do Autor:
Nascida no município de Telêmaco Borba -Paraná. Graduada em Letras/ Inglês. Especialista em Educação Especial e Psicopedagogia Clinica/institucional. Atua na área de Educação Especial e Educação Infantil.

Fonte:Artigonal