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quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Liderança segundo Maquiavel - prefácio


Todas as corporações privadas, tanto as de maior envergadura, como as multinacionais e as grandes empresas nacionais, passando por companhias de médio porte, até chegar às pequenas empresas, têm o mesmo desafio: recrutar pessoas no mercado, contratá-las e treiná-las para que possam liderar, de maneira adequada; da cúpula aos escalões menores.
Liderança é assunto de suma importância nas organizações, sejam elas públicas ou privadas. Desde o mais alto escalão, como a chefia de uma Nação, por exemplo, passando por ministérios e autarquias, governos estaduais e municipais, segundos e terceiros escalões, todos vivem um dilema crucial: identificar, nomear ou eleger quem que possa liderar as pessoas, nos diversos níveis, de maneira adequada, rumo ao objetivo maior da empresa.
Todas as corporações privadas, tanto as de maior envergadura, como as multinacionais e as grandes empresas nacionais, passando por companhias de médio porte, até chegar às pequenas empresas, têm o mesmo desafio: recrutar pessoas no mercado, contratá-las e treiná-las para que possam liderar, de maneira adequada; da cúpula aos escalões menores.
A principal proposta do presente trabalho, é fazer uma reflexão sobre as ações dos "príncipes", ou seja, dos líderes que possam comandar as organizações. Pretendo, aqui, identificar as melhores atitudes, práticas e competências para torná-los aptos e eficazes no cumprimento de seu dever de gestor organizacional.
Desenvolvido com base na teoria da liderança de Nicolau Maquiavel, tratada em seus vários trabalhos, particularmente na obra O Príncipe, escrita no início do século XVI, por volta de 1512, este trabalho tem como propósito apresentar um modelo de liderança que seja eficaz para as organizações alcançarem seus objetivos.
Ao utilizar o termo "objetivos", penso em duas premissas básicas: a primeira prevê a continuidade próspera, lucrativa, das organizações privadas; e, institucionalmente, a continuidade segura e estável das organizações públicas.
A segunda premissa leva em conta que as organizações precisam cumprir seu papel social e a finalidade para a qual foram criadas, ou seja, devem atender às necessidades de seu público-alvo.
Tendo em vista essas premissas básicas, é função, obrigação e responsabilidade do líder cumprir esses compromissos, agindo e fazendo o necessário para alcançar suas metas, que só podem ter como fator limitador os melhores princípios éticos, que devem sempre nortear suas ações. Entretanto, como bem destaca o filósofo Sócrates, em diálogo com Eutidemo narrado por Xenofontes na obra Ditos e feitos Memoráveis de Sócrates, "a justiça e a injustiça dependem das circunstâncias".
No diálogo supracitado, Sócrates defende que um general que usar de maus tratos, ou for excessivamente rigoroso com os inimigos, com o objetivo de salvar uma cidade da escravidão, estaria agindo com justiça, pois, nesse caso, o mal maior é deixar os invasores subjugarem o povo atacado.
Nesse sentido, um primeiro embate ético deve ser travado aqui, pois a teoria de Nicolau Maquiavel é interpretada de diversas formas, muitas delas errôneas. O termo Maquiavelismo, por exemplo, é associado à ideia de que para o autor "os fins justificam os meios".
Ao longo da história, essa frase acabou ganhando um sentido pejorativo, provavelmente por ter sido aplicada inadequadamente por pessoas sem compromisso ético, simbolizando ela atitudes de "esperteza", usadas para enganar as pessoas.
Mas, um estudo da obra O Príncipe aponta que a intenção de Maquiavel foi apresentar os fatos e comportamentos da natureza humana segundo suas fraquezas e defeitos; e orientar os líderes a levar em conta essa realidade, com o propósito de manter a ordem e evitar o colapso e a anarquia no Estado.
Se analisarmos o comportamento e as atitudes de líderes que obtiveram sucesso ao longo da história, verificaremos que, em alguma medida e em certo sentido; eles souberam usar os padrões de comportamentos ensinados na obra O Príncipe; por outro lado, os que fracassaram negligenciaram os ensinamentos ali contidos.
A história está repleta de exemplos de luta pelo poder nos quais vence não aquele que tem as melhores intenções políticas, sociais e organizacionais, mas, sim, quem sabe melhor utilizar as estratégias mais eficazes para conquistar e manter o poder. Muitos ditadores célebres, como Hitler e Stalin, que causaram grandes males a seus povos e à humanidade, estão nessa categoria.
Um exemplo a ser citado, é a disputa pelo poder na União Soviética ocorrida após a morte de Lênin, lider da revolução bolchevique, em 1924: o conflito girou em torno de dois membros do partido comunista; o primeiro foi Leon Trotsky, segundo homem da "Revolução de Outubro" (cuja habilidade militar durante a guerra civil russa lhe rendeu grande prestígio); e o segundo foi Josef Stalin, Secretário-Geral do Partido Comunista da URSS depois de 1922 (o qual desempenhou um papel insignificante durante a Revolução).
Stalin levou a melhor, pois soube utilizar estratagemas, subterfúgios, intrigas, mentiras e traições, para manipular a burocracia e o parlamento russo. Consta que através de uma rede de espiões, ele chegou até mesmo a interceptar uma carta de Lenin, que, gravemente enfermo após sofrer um derrame – e incapaz de governar o pais –, indicava Trotsky como seu sucessor. Stalin teve, assim, sua posição consolidada.
Em seguida, perseguiu, expulsou e assassinou praticamente todos os desafetos e ex-companheiros de revolução que lhe faziam oposição.
Embates acontecem também nas organizações, permeando toda a cadeia de comando. Apesar de o assunto não ser tratado abertamente nas escolas de administração e nos documentos oficiais, na prática intrigas entre profissionais, chefes e subordinados, dentro de empresas públicas e privadas, ocorrem com muita frequência e provocam graves danos às organizações. Quando essas relações não são administradas adequadamente, provocam situações de assédio moral, geram desmotivação, desunião e perda de rendimento da equipe. Só mesmo uma liderança eficaz pode resolver a questão.
Um bom exemplo de líder pragmático no mundo corporativo é o lendário Alfred Sloan Jr., que dirigiu durante 23 anos a General Motors, uma das maiores empresas do mundo. Sloan praticamente inventou a arte de administrar uma grande corporação. Quando entrou na empresa, na década de vinte, a GM era um verdadeiro caos, uma frouxa federação de empresas dirigidas pelos ex-proprietários, um emaranhado de negócios dispersos e desordenados. Endividada e com a produção à beira do colapso, a General Motors quase foi à falência naquela época.
Em 1923, Sloan assumiu a presidência da empresa e com pulso firme criou as divisões corporativas. A organização, sob seu comando, passou a ser controlada por orçamentos, sistemas de contratação, relatórios de venda e administração centralizada. Entretanto, para garantir a motivação e a criatividade nas divisões que compunham a empresa, a autonomia relativa teve que ser mantida. Seu maior desafio foi controlar e liderar cada um dos "chefetes" – que até pouco tempo antes eram os donos da empresa e dirigiam as divisões da GM –, e fazê-los trabalhar em equipe, sintonizados com a administração central.
Outro exemplo de líder eficaz, mas não necessariamente virtuoso do ponto de vista de sua humanidade, foi Napoleão Bonaparte. Ele soube, como poucos, manter um comando firme e, ao mesmo tempo, motivar e estimular seus comandados. Napoleão, que é considerado o maior general da história, tinha fama de disciplinador e era extremamente cruel com seus desafetos. Essa atitude sempre lhe trouxe ótimos resultados, pois, ao mesmo tempo em que era temido e respeitado por todos, era também admirado por seus liderados, em função das conquistas alcançadas e de seu carisma pessoal.
Sun Tzu, general e pensador chinês, – que viveu entre os anos 544 e 446 a.C, ou seja, há quase 25 séculos –, em seu livro A Arte da Guerra, também apresenta uma série de conselhos que são estudados e respeitados por líderes empresariais da atualidade. Na mesma linha de sugestões de Maquiavel, Sun Tzu afirma: "Se, entretanto, você for tolerante, mas incapaz de fazer sentir sua autoridade; bondoso, mas incapaz de fazer cumprir seu comando; e, além de tudo, incapaz de controlar a desordem; então seus soldados serão como filhos mimados, serão inúteis para qualquer propósito prático".
Para efeito da análise de um modelo eficaz de liderança, vou recorrer, também, a um dos melhores estudos sobre a liderança eficaz, realizado por Peter Drucker, autor do livro O Gerente Eficaz (Zahar Editores, 1981). Segundo Drucker, considerado o mais importante estudioso da competência gerencial do século XX, não existe uma "personalidade eficaz" entre os profissionais de sucesso. O que existe é um conjunto de práticas que geram resultados eficazes entre os profissionais, qualquer que seja seu ramo de atividade.
A teoria da liderança, de Maquiavel, e o emprego da experiência de diversos pensadores políticos, empresariais e de outras áreas; podem nos ensinar as melhores práticas de liderança. A partir delas, vou procurar desenvolver e apresentar um modelo de ação que possa ser utilizado com eficácia nas atuais organizações, pois o objetivo aqui é identificar as práticas e as atitudes que tornam um líder eficaz.

Estaremos publicando nos próximos dias os primeiros capítulos do livro "A Liderança segundo Maquiavel"


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Maquiavel, por Olavo de Carvalho

Sozinho, esse pequeno livro já colocaria Olavo no panteão dos grandes filósofos políticos da atualidade.


Dentro do grande esforço da obra que o filósofo Olavo de Carvalho está escrevendo - A MENTE REVOLUCIONÁRIA - o capítulo sobre Maquiavel foi destacado neste livro que acaba de chegar ao público brasileiro. De imediato o li. Olavo nos brinda com suas profundas reflexões, ornadas pela prosa magistral e clara que lhe é peculiar. Esta aula sobre o florentino permite que mesmo principiantes possam lê-la com proveito. Na verdade, mais que isso: é, ela própria, um roteiro de leitura para conduzir quem está se aprofundando pelos meandros da ciência política e da filosofia política.
O fato é que Olavo de Carvalho destrincha os segredos últimos do autor renascentista, tão obscuro quanto fascinante. Essa obscuridade deu margem a diferentes interpretações ao longo do tempo, muitas delas contraditórias entre si. Olavo, centrando na biografia e na própria produção de Maquiavel, desvenda os mistérios e os equívocos e demonstra como o filho de Florença foi o protótipo do intelectual moderno, o engenheiro de almas que quis transformar o mundo sem perceber as suas próprias contradições internas. Flagrou Maquiavel como exemplo clássico de paralaxe cognitiva, conceito descoberto por Olavo: teorizou de forma a ele mesmo se fazer vítima potencial de suas teorias. Ao aconselhar os novos príncipes a eliminar os conselheiros que lhe ajudaram a chegar ao poder não viu que mandava seus aconselhados a liquidarem a si mesmo.

O livro é também uma survey exaustiva do status quaestionis da obra do florentino, resenhando os principais escritores que se debruçaram sobre o autor de O Príncipe. A começar por Isaiah Berlin, que enxergou nele um precursor do liberalismo, claro de que forma equivocada. Olavo vai dizer que
"hoje é quase impossível deixar de enxergar nele o precursor voluntário e consciente do Estado altamente burocratizado e interventor em que vai se transformando a democracia liberal americana".
Importante sublinhar essa percepção olaviana, porque o eixo histórico a se desenrolar no século XXI passa pelo que vai acontecer dentro da estrutura do Estado norte-americano e seu duelo com as forças que lutam pela Nova Ordem Mundial. E também pelo duelo com a emergente força do império comunista chinês. As raízes do que está por vir já brotaram e estão prenhes de medonha violência, muito maior do que aquela que vimos na primeira metade do século XX. A idéia maquiavélica da Terceira Roma toma aqui o sentido dado pelo florentino a ela: o despertar das forças pagãs, anulando as aquisições morais e científicas do contributo judeu-cristão à Roma dos Apóstolos.

Toda ciência política que partiu de Maquiavel é essencialmente a negação do saber clássico, que via o Estado como instrumento do bem comum e a figura do governante como o primeiro servidor desse princípio, comprometido com a ordem justa, à luz da lei natural. O maquiavelismo é a negação desse saber superior, que começou a ser descoberto com Platão e encontrou em Tomás de Aquino sua plenitude. O mundo moderno é o mundo revolucionário, igualitarista, democrático, desprovido de uma elite egrégia, como constatou Ortega y Gasset. O paraíso dos novos príncipes aventureiros, que passaram a buscar o poder apenas pelo poder, fim em si mesmo, e não meio para alcançar o bem estar coletivo, sobretudo a paz. O Estado permanente de guerra é a hipótese de Maquiavel. Exemplos acabados desses novos príncipes são abundantes:Robespierre, Lênin, Stalin, Fidel e tutti quanti.

Olavo enumera uma a uma as diversas interpretações dadas à obra de Maquiavel ao longo da história e deixo ao leitor interessado ir buscar no livro quais foram estas. Será talvez a sua parte mais útil aos estudantes de ciência política. O mapa do caminho para não se perder nas linhas densas desse poderoso sofista. Maquiavel foi um barnabé com mania de grandeza e portador de um recalque imenso, aconselhando aos outros aquilo que ele mesmo era incapaz de fazer. Desprovido da Virtú e amaldiçoado pela Fortuna, Maquiavel foi também o protótipo do revolucionário fracassado que se refugiou nas letras, esse meio maleável no qual a mentira pode alcançar sua abjeta plenitude de utopia.

A propósito, Olavo identifica o conceito de Fortuna com Deus. Discordo. Como filho do Renascimento, Maquiavel acreditava nas idéias dominantes do seu tempo, na magia, na astrologia, na alquimia. A Fortuna era, para ele, esse determinante cósmico que provinha das forças da natureza, idéia que irá percorrer toda a modernidade e terá em Goethe o seu poeta maior. A Fortuna como o espelho da carta do Tarô. Fortuna é o destino, que precisa ser moldado pela Virtú, pela intrepidez amoral dos novos príncipes. Deus está longe das preocupações do pervertido florentino. Os supostos materialistas e "realistas" que citam Maquiavel para justificar suas próprias tolices mal sabem que a raiz primeira do autor renascentista é a mais baixa magia, o culto satânico mais rasteiro, a maldade transformada em virtude.
Sozinho, esse pequeno livro já colocaria Olavo no panteão dos grandes filósofos políticos da atualidade. Dá para imaginar o que virá na obra maior, em gestação, A MENTE REVOLUCIONÁRIA. Espero com ansiedade sua publicação.

Ficha Técnica: Maquiavel ou a Confusão Demoníaca
Autor: Olavo Luiz Pimentel de Carvalho
Campinas, Vide Editorial, 2011

Colaboração:Rodney Eloy

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Príncipe revisitado: Maquiavel e o mundo empresarial

Uma das obras  mais importantes de gestão e negócios, O Príncipe, de Nicolau Maquiavel ganha uma nova versão sob a ótica de dois experientes gestores, Luiz Roberto Antonik, executivo do setor de Comunicações, e Aderbal Nicolas Muller, acadêmico da universidade paranaense UNIFAE. Polêmico e ao mesmo tempo original, O Príncipe revisitado: Maquiavel e o mundo empresarial, lançamento da editora Actual, trata-se de um livro singular, idealizado para ser a mais singela interpretação de Maquiavel em nossos dias. Reescrito com exemplos atuais e percepções da nossa era, o livro faz uma releitura cuidadosa e mostra como os ensinamentos do renascentista podem inspirar empresários e executivos a enfrentarem seus desafios do cotidiano.

Segundo Antonio Carlos Valente, presidente do grupo Telefônica no Brasil, o leitor se surpreenderá com a atualidade do texto e com os conceitos que ele traz para a gestão empresarial. “A riqueza do debate proposto pelos autores oxigena as ideias para nós que vivemos os desafios da vida empresarial – que se agigantam cada vez mais pelas revoluções permanentes vividas neste ambiente, como aquelas proporcionadas pelo avanço da tecnologia”.

O Príncipe revisitado: Maquiavel e o mundo empresarial está dividido em 26 capítulos,entre eles: Quando os executivos medem forças; Ser liberal, uma arte conquistada aos poucos; A arte de confiar nas pessoas e delegar; Aqueles que se tornam empresários pela artimanha; A gestão de empresas familiares; Quais os motivos que levam alguns empresários a perder suas empresas; A sorte existe, mas não se pode confiar nela, entre outros. Os trechos da obra original foram mantidos e há páginas inteiras transferidas para os dias de hoje, com apenas a substituição da palavra “príncipe” pela palavra “empresário”; o que, segundo os autores, denota a atualidade da obra de Maquiavel.

“Em verdade, a atualidade de Maquiavel reside, ao contrário do que ensinam certos teóricos da administração, muito mais na força, rigor, justiça e necessidade de ação rápida, qualidades inerentes ao homem de sucesso que gere qualquer empreendimento, do que em processos (...) a prática e o conhecimento nos ensinam que um pouco de maldade, estresse e desafio são indispensáveis para o bom resultado, e isso apenas se obtêm com pessoas certas” – ressaltam os autores.

O Príncipe, escrito por Nicolau Maquiavel em 1513 e publicado postumamente em 1532,  trata-se de um dos tratados políticos fundamentais elaborados pelo pensamento humano, e  tem papel crucial na construção do conceito de Estado como conhecemos hoje. No mesmo estilo do Institutio Principis Christiani, de Erasmo de Rotterdam, o livro descreve as maneiras de conduzir-se aos negócios públicos internos e externos e, fundamentalmente, como conquistar e manter um principado.


Luis Roberto Antonik
é mestre em gestão Empresarial pela Escola Brasileira de Administração Pública “Ebap”, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Graduado em Geografia, Ciências Econômicas, e Administração. Especialista em Administração e Finanças. Pró-reitor, professor de graduação e pós-graduação da Unifae. Ex- diretor de planejamento empresarial da Telepar (atual Brasil telecom), Telebrás e Telefônica. Ex-diretor executivo do grupo Tim no Brasil, diretor de assuntos institucionais da RPC e diretor geral da Associação Brasileira das emissoras de Rádio e televisão “Abert”.

 
Aderbal Nicolas Muller
é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestre em Ciências Sociais Aplicadas pelo centro Católico do Sudoeste do Paraná (Unics). Especialista em Administração e Finanças pelo Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino FAE (Unifae), em Curitiba, Paraná. Graduado em Ciências Contábeis pela FAE Business School. É autor dos livros Auditoria das organizações (Atlas, 2001), Auditoria integral (Juruá, 2005), Contabilidade básica (Pearson, 2006), Manual da nota fiscal eletrônica (Juruá, 2007), Cálculos periciais (Juruá, 2007), Análise financeira (Atlas, 2008) e Contabilidade avançada e internacional (Saraiva, 2009).

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

SOMOS MAQUIAVELICOS - O QUE MAQUIAVEL NOS ENSINOU SOBRE A NATUREZA HUMANA

 

Sinopse

Sem dúvida Nicolau Maquiavel é um dos pensadores mais influentes e controversos do mundo moderno. Júlio Pompeu teve seu primeiro contato com a obra do filósofo italiano nos cursos sobre política da faculdade de Direito e desde então nunca mais o deixou.O uso pejorativo do termo maquiavélico, em contraste com a eficácia dos seus conselhos, o intrigava. Maquiavel tornou-se uma obsessão - objeto de leituras intermináveis e referência obrigatória em suas aulas e textos.De fato, as lições de Maquiavel continuam pertinentes e atuais. O modo como contrariou o idealismo dominante em sua época não só é uma de suas facetas mais originais como permanece fundamental para se pensar o idealismo nos dias de hoje. Maquiavel alerta, sem piedade: os homens, se não lutam por necessidade, lutam por ambição. O homem é o que é, e a política expressa tanto suas virtudes quanto seus vícios."O que dificulta o entendimento das ideias de Maquiavel é a "feiura" da verdade sobre a natureza humana. É preciso encará-la e ultrapassá-la. Mas para isto, antes, devemos perceber que agimos de uma maneira e fingimos agir de outra. Que somos uma coisa e imaginamos ser outra. Não por hipocrisia, ou qualquer outro defeito, mas por fraqueza. Somos fracos demais para admitir, para nós mesmos e para os outros, que agimos movidos por desejos egoístas, que mesmo nosso altruísmo talvez seja somente um egoísmo disfarçado de boas intenções. Desta fraqueza sem franqueza nasceu uma imagem mentirosa de nós mesmos.", escreve o autor na introdução do livro.O texto de Júlio Pompeu é direto e franco. Apresenta a filosofia política de Maquiavel sem maiores complicações, resgatando sua importância e atualidade. Mostra ao leitor que, apesar de todo o tempo transcorrido desde os dias de Maquiavel, ainda somos maquiavélicos.

Ficha Técnica

Editora: OBJETIVA
ISBN: 8539001799
ISBN13: 9788539001798
Edição: 1ª Edição - 2011
Número de Páginas: 256
Acabamento: BROCHURA
Formato: 14,00 x 21,00 cm.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Livro : Comentários À “primeira Década” de Tito Lívio - Maquiavel

Resumo: Em Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel brinda o leitor com a história de Roma, discorrendo sobre a sua política, suas divergências e seus conflitos. A obra escrita entre 1513 e 1517, cujo titulo original é Discorsi, é uma digressão sobre os dez primeiros livros do historiador romano Tito Lívio e escrita por Maquiavel quatro anos após haver concluído “O Príncipe”, o que justifica suas perceptíveis semelhanças com o primeiro.

No entanto, o que o distingue de “O Príncipe” é a análise detalhada da república, em que o autor claramente se coloca em favor desta, a apontar suas principais características observadas no decorrer da história e modos de melhorá-la, ou de ao menos mantê-la. Maquiavel não se preocupa em fundamentar afirmativas ou documentar referências. Em vez disso, identifica no passado acontecimentos ou seqüências de eventos que ilustrem e confirmem suas convicções acerca do presente, em especial a política a ser seguida pelas cidades italianas. Na verdade, discorrer sobre os livros de Tito Lívio é mostrar Roma em todos seus aspectos. "Os que estudarem o que foi o inicio de Roma, seus legisladores e a ordem pública que instituíram não se espantarão de saber que tantas virtudes tenham sido ali cultivadas durante séculos, e que aquela cidade se tenha tornado centro de imenso império".

Na seqüência do livro, Maquiavel nos aponta todos os acontecimentos que levaram à criação dos tributos romanos, do Senado, da República, enfim, do Estado Romano. Assim, pode-se considerar Maquiavel como sendo, indubitavelmente, um pensador indutivo -utiliza-se de inúmeros exemplos históricos com o fim de sustentar suas afirmações. No entanto, seu propósito não é sempre impecavelmente atingido, mesmo porque a realidade não segue regras e é, portanto, muito mais complexa do que se pode teorizar.

A obra é começada com a citação da origem das cidades, que podem estabelecer-se devido a um grupo de cidadãos juntar-se a visar maior segurança; a estrangeiros que querem assegurar o território conquistado, a estabelecer, ali, colônias; ou mesmo a fim de exaltar-se a glória do Príncipe. As repúblicas nascem com o surgimento das cidades e, assim, constituem três espécies: monarquia, aristocracia e despotismo, que podem evoluir para o despotismo, oligarquia e anarquia, respectivamente. Neste ponto, a sociedade é vista por Maquiavel de forma pessimista: ascendência e decadência, a formar um ciclo vicioso. Para Maquiavel todos os princípios corrompem-se e degeneram-se, corrigidos somente via acidente externo (fortuna) ou por sabedoria intrínseca (virtu). Conclui-se que a sua melhor forma seria o equilíbrio, a “justa medida”, segundo Aristóteles, mantido através das próprias discordâncias entre o povo e o Senado, já que estes, em conjunto, representam e lutam pelos interesses gerais do Estado.

O Estado é definido como o poder central soberano; é o monopólio do uso legítimo da força, como diria Weber. As leis são estabelecidas nas práticas virtuosas da sociedade e com o cuidado de não repetir o que não teve de êxito. Por isso, não há nada pior do que a desrespeitar. Se isso ocorrer, tornar-se clara a falha do exercício do poder de quem a corrompe. Tratando-se do Estado, tudo é válido, desde a violação de leis e costumes e tudo mais que for necessário para atingirem-se as conseqüências visadas: os fins justificam os meios. Nessa visão de poder do Estado, é clara a importância da religião como instrumento político do Estado, de modo a justificar interesses e, também, como conforto à população em busca de ideais e disposta a dar sua vida por estes. O êxito de uma república, consoante o autor, pode ser estrategicamente obtido através da sucessão dos governantes. Se se intercalar os virtuosos com os fracos, o Estado poderá manter-se. Mas, se, diferentemente, dois ruins sucederem-se, ou apenas um, mas que seja duradouro, a ruína do Estado será inevitável, já que, desse modo, o segundo governo não poderá utilizar-se dos bons frutos do governo anterior.

Destarte, cita a importância das repúblicas, já que nela os próprios cidadãos escolhem seus governantes, de modo a aumentar a chance de se ter, consecutivamente, bons governos. Com relação à política de defesa onde há pessoas e não um exército, é notada um clara incompetência por parte do soberano, pois é de sua exclusiva competência formar um exército próprio para a defesa da nação. É, também, de extrema importância saber-se a hora própria para instituir-se a ditadura, que, em ocasiões excepcionais, é necessária a fim de tomarem-se decisões rápidas, a dispensar, assim, consultar as tradicionais instituições do Estado. Contudo, ela deve-se instituir por período limitado, de modo a não se corromper e deve existir até quando o motivo o qual a fez precisar-se for eliminado. Após uma análise teórica e comparativa -em termos históricos- é colocada ainda a importância da fortuna, a qual tem contingência própria e o poder de mudar os fatos. Assim, o autor define o papel do homem na história: desafiá-la. Com base na teoria do equilíbrio, conclui-se, então, que o ideal é que se estabeleça um meio termo entre as formas de governo a serem adotadas, observando-se que a combinação das já existentes pode mostrar-se muito mais eficiente. A administração de um Estado deve adaptar-se às necessidades da população, e não as pessoas às leis.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os Ossos de Deus - Leonardo Gori



Sinopse

Qual a ligação entre Leonardo da Vinci e Nicolau Maquiavel, o autor do clássico O Príncipe? Que segredos esses gênios do Renascimento italiano poderiam esconder? Nas páginas deste Os ossos de Deus, os célebres protagonistas ganham vida e se envolvem, durante uma escavação, com a descoberta de cadáveres de quatro mouros e um gorila. Por trás do inusitado, muitas revelações sobre os caminhos da humanidade. O cuidado com a reconstituição histórica do renomado escritor Leonardo Gori faz o leitor caminhar pela região da Toscana lado a lado com Da Vinci e Maquiavel. Os ossos de Deus é um thriller como há muito não se via. Ao mesmo tempo inquietante, rico em informações verídicas e extremamente divertido.

Páginas: 288 páginas
ISBN: 9788576655480
Formato: 23 x 16 cm.
Encadernação: Tapa rústica
Selo: Planeta
Nº de Edição: 1
Publicação: Setembro 2010

Fonte:bondfaro

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Vita di Castruccio Castracani

Na obra, Vita di Castruccio Castracani (1281-1328), senhor e duque de Lucca, Maquiavel segue o padrão da Vida de Tamerlão para transmitir um grandissimo exemplo, o mito do herói político cuja criação de ordem social manifesta uma força para além do bem e do mal. A ênfase na crueldade de Castruccio sugere que a ordem política depende de um poder intramundano. Os materiais históricos são deformados de modo a criar a imagem de um fundador de um stato, mas cuja virtú foi frustrada pela fortuna. A fortuna procede como quer; é ela, não a prudenza, que confere a grandeza. E contudo, diferentemente do que Maquiavel escreve, Castruccio não era um esposito, uma criança abandonada, mas um descendente de aristocratas de Lucca; não era solteiro pois casou e teve filhos; era um pro-vigário imperial, não propriamente um patriota; Enfim, as teorias militares de Castruccio coincidem estranhamente com as de Maquiavel.

Disponível no dominino público clique aqui

domingo, 5 de setembro de 2010

Livro:OS FILÓSOFOS DA POLÍTICA:IDADE MÉDIA E RENASCIMENTO

SUMÁRIO

I – A Filosofia na Grécia, depois de Sócrates, Platão e Aristóteles
. Epícuro e os Epicuristas
. Antístenes e a Escola Cínica

II – Sai a “polis”, entra o Império
. Direito, o legado de Roma
. Cícero e Sêneca
. Patrística, doutores e santos

III – Tomás de Aquino, a razão e a fé

IV – Maquiavel, uma teoria para a política. Europa, um mundo em transição
. Filósofo, cientista ou diletante?
. A obra maldita
. A Esfinge e seu julgamento
. O homem e a obra: um Balanço

Apêndice
. A “regra de ouro” dos Epicuristas
. O Método Tomista, teses e questões
. A lógica de ferro de Nicolau Maquiavel

Referências Bibliográficas

sábado, 24 de julho de 2010

Livro - O PRÍNCIPE DE MAQUIAVEL E SEUS LEITORES

SINOPSE:
Apreender a principal obra de Maquiavel como texto. Esta perspectiva leva Arnaldo a Cortina a analisar os mecanismos intra e interdiscursivos que operam nas leituras d'O príncipe. Partindo do contexto do aparecimento da obra e da apresentação dos recursos argumentativos que a estruturam, Cortina passa em revista os diferentes procedimentos que possibilitam múltiplas interpretações de um texto para demonstrar como eles podem abranger a trajetória de um dos grandes clássicos da filosofia política.

ORELHAS:
O príncipe de Maquiavel e seus leitores. Uma investigação sobre o processo de leitura é o resultado de preocupações distintas: de professor, sempre atento à questão pedagógica leitura na escola; de pesquisador, consciente de que a prática deve estar sempre acompanhada da reflexão teórica. O livro toma, assim, dois caminhos que se cruzam, se encontram e se juntam: no primeiro, discutem-se questões de leitura - modalidades, procedimentos, perspectivas, formas, relações com a tipologia de textos -; no segundo, examinam-se O príncipe de Nicolau Maquiavel e as várias leituras que dele foram feitas em diferentes momentos históricos. A finalidade do estudo, muito bem alcançada, é mostrar que um mesmo texto pode dar margem a leituras distintas tanto pelas determinações e possibilidades do próprio texto quanto pelas condições sócio-históricas nas quais se faz a leitura, e que, em conseqüência, o processo de leitura depende
também das duas ordens de coerções, estruturais e históricas. De interesse para um público diversificado - professores, lingüistas, estudiosos da literatura, sociólogos ou comunicadores, entre outros -, o livro de Arnaldo Cortina tem a atração dos grandes temas e autores escolhidos, mas, especialmente, o encanto de um texto em que se aliam com coerência e consistência o pano de fundo teórico, as análises efetuadas e os resultados alcançados. Diana Luz Pessoa de Barros


Quarta capa

O propósito deste livro é discutir a questão do procedimento de leitura. Partindo da problemática da interpretação e compreensão, pretende refletir sobre diferentes perspectivas teóricas que possam contribuir para o seu melhor entendimento. Para amparar essa discussão, toma o texto O príncipe, de Nicolau Maquiavel, e observa como se construíram suas diferentes leituras ao longo da história, recuperando o contexto sócio-histórico em que a obra foi escrita e examinando sua organização discursiva, para, em seguida, procurar compreender os diferentes mecanismos interpretativos desencadeados por vários de seus leitores.


Sobre o autor

ARNALDO CORTINA nasceu em Jundiaí - SP, em 1956. Graduou-se em Letras, descobrindo aí a Lingüística e, conseqüentemente, o trabalho com a linguagem no estudo de texto. Concluiu o mestrado, em 1988, e o doutorado, em 1994, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Iniciou sua carreira no ensino universitário em 1987, no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Câmpus de São José do Rio Preto. A partir de 1996, transferiu-se para a Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, Câmpus de Araraquara, onde atua no ensino de graduação e de pós-graduação.


Apresentação

Introdução

1 Determinações sobre o processo de leitura
1 Leitura e enunciação
2 Leitura e interpretação
3 discutindo a noção de contexto
4 Três perspectivas de leitura
5 Formas de leitura
6 Duas leituras de O príncipe de Nicolau Maquiavel?
7 Três modalidades da leitura
8 A leitura como conhecimento enciclopédico
9 Dois aspectos da leitura: descontextualização e intertextualidade

2 tipologia de texto e leitura
1 Tipologia de texto segundo a perspectiva da semiótica francesa
2 Tipologia de texto segundo a perspectiva da análise do discurso francesa
3 Tipologia de texto segundo a perspectiva da lingüística textual
4 Reflexões sobre as diferentes propostas de tipologia de texto, relacionando
determinados aspectos com O príncipe de Maquiavel
5 Para uma tipologia do discurso
6 Modalidades de leitura e tipologia de texto

3 As condições históricas do aparecimento de O príncipe e sua organização discursiva
1 Recuo no tempo. Reconstituição do contexto histórico em que Maquiavel viveu e
escreveu O príncipe
2 Revisitando o Renascimento
2.1 Organização socioeconômica das cidades italianas durante o Renascimento. O caso de
Florença
2.2 Um perfil do homem do Renascimento
3 Um olhar sobre O príncipe
3.1 A organização de O príncipe de Nicolau Maquiavel
3.2 A narratividade de O príncipe. O manual de instrução e a construção do objeto-valor
3.3 Recursos lingüísticos utilizados na construção do discurso de O príncipe. A
argumentação e os recursos retóricos

4 As várias leituras de O príncipe: da Renascença até nossos dias
1 Nicolau Maquiavel comenta O príncipe
2 A leitura da Igreja Católica, durante o Concílio de Trento
3 A leitura de Frederico II da Prússia em seu Anti-Maquiavel
4 A leitura de rousseau em O contrato social
5 A leitura que Napoleão Bonaparte faz de O príncipe
6 Benito Mussolini lê O príncipe de Maquiavel
7 Como Antonio Gramsci lê O príncipe
8 Outras leituras de O príncipe
9 As leituras de O príncipe no Brasil

Pode ser adquirido também no dominio público clique aqui

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Sorriso de Nicolau -Maurizio Viroli



“Nicolau, assim, deixa a obscuridade e torna-se chefe da Segunda Chancelaria, onde eram tratados os problemas relativos ao domínio e à política externa de Florença. É um jovem desconhecido, inexperiente em política, mas já marcado pelos importantes acontecimentos que assistira, ou dos quais se recordava: os corpos dos Pazzi, arrastados pelas ruas de Florença ou enforcados nas janelas do Palazzo Vecchio; a entrada de Carlos VIII, que tornava evidente a debilidade de Florença e da Itália; o odor acre do corpo de Savonarola ardendo na Piazza della Signoria (...).”

Nicolau Maquiavel não foi unicamente o autor de O príncipe, isto é, da obra fundadora do pensamento político moderno. Era também uma personalidade complexa, inquieta, inclinada a viver as mais diversas experiências.

O pesquisador e professor da Universidade de Princeton Maurizio Viroli descortina nesta aprimorada biografia os encontros de Maquiavel com os poderosos, as amizades, os amores, as viagens, seus sucessos e suas derrotas.

No entorno da vida de Maquiavel descobrimos a Florença dos Medici, mas também as infindáveis intrigas palacianas dos Estados italianos do século XVI, século cheio de brilho mas rico em reviravoltas e golpes de teatro.
“Sempre fui fascinado pelo pensamento político e pela escritura de Maquiavel e, sobretudo, pelo seu modo singular de rir da vida e dos homens. Escrevi estas páginas para compreender o significado do sorriso que emerge de suas cartas, suas obras e de alguns retratos seus, pois acredito que esse sorriso encerra uma grande sabedoria de vida, ainda mais profunda do que o seu pensamento político”, escreve Maurizio Viroli logo no início desta biografia que enlaça estreitamente história pública e vida pessoal.



Trechos

Durante toda a vida, Nicolau empregou suas energias no intuito de convencer os poderosos da Itália a libertar o país do domínio dos estrangeiros que mandavam e desmandavam com seus exércitos. Todavia, poucas semanas antes de sua morte, cumpriu-se o último e mais grave ato de toda a tragédia italiana. Em 6 de maio de 1527, um exército formado por soldados da infantaria espanhola e pelos terríveis mercenários alemães, sob o comando do duque Carlos de Bourbon, tomou de assalto os muros de Roma. [...] Após poucas horas de combate, Roma caiu em poder dos espanhóis e dos mercenários. Os espanhóis estavam sedentos de violência e de despojos de guerra; os mercenários alemães, fervorosos protestantes, ávidos de violência, de despojos e de vingança contra os odiados católicos. É o saque de Roma. (p. 19)

O raciocínio era impecável. Maquiavel sabia, porém, que os florentinos, avarentos e pouco argutos, argumentariam que o rei da França estaria ali para protegê-los e que o perigo representado por César Bórgia fora afastado. Não haveria, assim, necessidade alguma de desembolsar mais dinheiro. Maquiavel explica que essa opinião era temerária, ´pois toda cidade e Estado deve considerar inimigo qualquer um que julgue poder ocupar o seu Estado e todo aquele contra o qual não seja possível defender-se´. Nenhum Estado que viva na dependência de um outro jamais estará em segurança. (p. 91)

Para Maquiavel, como sabemos, a política é feita pelos homens, com suas paixões, seu temperamento e suas fantasias. Para ele, era necessário, pois, compreender o espírito dos príncipes que encontrava, sondando profundamente suas almas, examinando por detrás de suas máscaras e simulações. Escreveu que ´a natureza fácil e boa´ fazia com que ele fosse facilmente enganado por qualquer um daqueles que o rodeavam. Um cortesão dissera a Maquiavel, entretanto, que qualquer homem poderia enganar o imperador, mas apenas uma vez. Nicolau retrucou dizendo que os homens e os problemas são tão inúmeros que, dessa maneira, o imperador poderia ser enganado a cada dia por um homem diferente. Não sabemos que efeito tal resposta causou ao cortesão, embora muitos soubessem que Maquiavel era um grande zombador. (p. 125)

Todos sabiam muito bem, continua Maquiavel, que o principal dever de qualquer príncipe é “evitar ser odiado ou desprezado”, seja pelos seus súditos, seja pelos seus aliados. Permanecer neutro entre dois combatentes significava, no entanto, a possibilidade de ser odiado e desprezado. Odiado por aquele que, entre os dois adversários, julgasse o príncipe (nesse caso particular, o papa) obrigado a estar a seu favor, ou em nome de uma antiga amizade, ou como pagamento de favores recebidos. E desprezado pelo outro contendor, que julgaria o príncipe tímido e indeciso, isto é, um “amigo inútil” ou um inimigo que não é capaz de infundir temor. (p. 209)

Qualquer um que procure refletir sobre tudo isso, escreve Maquiavel, não pode deixar de sentir dentro de si ódio pela tirania e um forte desejo de imitar os bons príncipes. Em outras palavras, aquele que realmente busca a verdadeira glória deveria procurar viver em uma cidade corrupta, não para arruiná-la ainda mais, como César, mas para reordená-la, como Rômulo. (p. 219)

[Maquiavel] despediu-se do mundo dizendo que preferia ir para o inferno em companhia dos grandes da antigüidade, para discutir sobre os grandes assuntos da política, a ir ao paraíso, para junto dos beatos e dos santos. Foi sua última pilhéria, contada para rir com os amigos do inferno e do paraíso, para que compreendessem que ele era sempre o mesmo “Machia”, e que nem mesmo a morte podia apagar aquele sorriso e petrificar seu rosto com a máscara do medo. (p. 295)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Maquiavel - política e retórica por Helton Adverse




Maquiavel - política e retórica
Helton Adverse

Área: Ciência Política Filosofia Coleção: Humanitas2009. 375p.


Ainda não li, mas pretendo comprar, a dica foi de um amigo blogueiro, Ricardo Spinoza.
Esse livro parte da seguinte pergunta: na perspectiva de Maquiavel, qual a condição para o exercício e manutençãodo poder político? Se a instituição de um Estado não costuma dispensar o uso da força, a conservação do poder abre uma dimensão diferente no domínio da ação: para manter-se no poder, o homem político deve ser capaz de entrar no jogo da aparência. Mas esse jogo não pode ser reduzido à manipulação da imagem ou à aplicação de uma técnica da ilusão. O que está em questão é a constituição de um lugar para a ação política: o lugar do príncipe.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Resenha - Maquiavel de Quentin Skinner

A publicação do estudo de Quentin Skinner, Maquiavel, vem enriquecer o acervo de obras em português sobre o pensamento político clássico. Trata-sede livro admirável e original, valorizado sobremaneira com o cuidadoso trabalho de tradução elaborado pela Prof â M. Lucia Montes. Após quase 500 anos da primeira edição de O Príncipe ─ obra magistral do mestre florentino ─ permanece viva a idéia de ser infindável a possibilidade de desvendar os meandros de sua construção analítica. Muitos arriscaram apreender o recado do escritor renascentista. Nesta instigante empreitada, que se inicia no próprio século XVI, Maquiavel foi alvo das mais diferentes e díspares interpretações. Sofreu ataques, sua obra foi acusada de inspirar atos ignominiosos, e do índex papal passou à história travestido com um dos mais temíveis adjetivos ─ maquiavélico. Tal reputação atravessou as fronteiras da Itália, ocupou o continente europeu e daí expandiu-se, desconhecendo limites geográficos e lingüísticos. A pecha do maquiavelismo sobreviveu às disputas entre jesuítas e protestantes e alojou-se no embate político, sempre como uma forma torpe e eficaz de caracterizar moralmente o adversário. E mais ainda: os termos maquiavélico e maquiavelismo não se restringiram sequer ao universo da política ─ habitaram, sem cerimônia, o mundo das relações privadas.

Não se pense, contudo, que Maquiavel com seus escritos esteve somente sujeito às interpretações que justificam a malignidade. Nem mesmo que a secularização dos últimos tempos libertaram-no do opróbrio moralista. Ao lado das mais ferozes condenações, muitos procuraram com igual paixão regenerar sua imagem, apontando os objetivos democráticos do primeiro grande analista político da modernidade. Rousseau encabeça uma longa lista, cerrando fileiras contra aqueles que vêem em Maquiavel o inspirador da tirania, o mestre do mal.

Face a tantas e tão contraditórias interpretações que se desdobram sem cessar nestes quatro séculos, um fato se impõe: há algo muito forte em Maquiavel, capaz de gerar amor e ódio, e de provocar nos estudiosos das idéias a necessidade de decifrar o enigma proposto. Quentin Skinner se lança nesta aventura e para isso coloca-se no efício de historiador, cujo trabalho, afirma, "consiste seguramente em servir como um anjo que registra, não como um juiz que condena" (p. 134). Seu registro baseia-se num contraponto entre a vida e a obra de Maquiavel. Assim, busca demonstrar a influência da carreira diplomática e do posterior exílio forçado nos escritos do autor renascentista.

A experiência na chancelaria propiciaria a Maquiavel observar ativamente a arte de conduzir os negócios do Estado. Skinner sustenta que de sua prática como funcionário público, Maquiavel intuiu os princípios da arte de governar que exporia mais tarde nas suas obras históricas e políticas. Desta forma, suas missões junto ao rei Luís XII da França, a César Bórgia, ao papa Júlio II, ao imperador Maximiliano, indicaram-lhe os motivos da instabilidade dos governos. Em poucas palavras, a "debilidade básica que todos compartilhavam consistia em uma fatídica inflexibilidade diante da mudança das circunstâncias" (p. 31).

O confronto entre as circunstâncias e o modo de agir dos governantes ─ ou entre a Fortuna e a Virtu ─ compõe o cerne da análise maquiaveliana. Nesta análise, há uma clara rejeição da moralidade humanista convencional, quer a partir de uma crítica impenitente aos princípios consagrados pela tradição, quer a partir de um silêncio eloqüente. De uma forma ou de outra, Maquiavel provoca um verdadeiro cataclisma. O homem é visto como um sujeito da história, capaz, se virtuoso, de resistir aos golpes da Fortuna

A Virtu é a disposição de fazer tudo aquilo que for ditado pela necessidade ─ independente do fato de ser a ação eventualmente iníqua ou virtuosa ─ para alcançar os mais altos objetivos. Ora, denotando a Virtu a qualidade de flexibilidade moral, cai por terra a rígida oposição cristã entre os vícios e a virtude. Há vícios virtuosos, e há virtudes que trazem a ruína.

Skinner demonstra ainda uma profunda ligação entre as teses desenvolvidas por Maquiavel no Príncipe e nos Discursos, divergindo, sem contudo atacar explicitamente, dos intérpretes que julgam existir, se não duas formulações muito distintas ou mesmo contraditórias, pelo menos dois textos independentes. Skinner, ao contrário, julga que nos Discursos o mestre florentino retoma o Príncipe, aprofundando suas proposições. Trata-se, uma vez mais, do desenvolvimento dos argumentos que sustentarei a indispensabilidade da Virtu para resistir aos infortúnios da sorte.

Aqui, torna-se clara a defesa da liberdade e sua identificação com a grandeza de uma cidade. Roma antiga atingiu a glória porque a Virtu esteve disseminada entre governantes e governados, e porque suas leis garantiram que a corrupção não tivesse efeitos devastadores.

O estudo de Roma ─ tema central dos Discursos ─ onde a liberdade foi preservada por mais de 400 anos, não se esgota em si mesmo. Skinner sustenta que "existe uma contínua preocupação com o destino de Florença por trás da argumentação geral" (p. 110). Maquiavel compara com angústia a total corrupção de sua cidade natal e a Virtu exemplar do mundo antigo. Sua Itália entregara-se à escravidão, a corrupção com sua influência maligna sufocou as liberdades, levando à tirania e à desgraça. Maquiavel, o amante da liberdade, o analista de situações, acreditava firmemente que este quadro poderia ser alterado. Afinal, a fortuna só manifesta sua força quando não encontra homens de coragem, cidadãos de Virtu.

Maquiavel, de Skinner, é uma importante contribuição para a leitura, dos escritos do autor renascentista. Mas, talvez, sua mais irresistível qualidade esteja no, fato de sugerir que Maquiavel continua aí para ser decifrado. Trata-se de um desafio que se renova a cada leitura.



Fonte
:Maquiavel de Quentin Skinner São Paulo: Editora Brasiliense, 1988 por Maria Tereza Sadek

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O GOVERNO MISTO

Maquiavel, tal como diversos autores, defende o governo misto como condição de se estabelecer a força da lei capaz de manter a república. Afirma que os legisladores mais sábios sempre escolhem o sistema de governo do qual participam todas as formas já referidas, o que o toma mais sólido e estável: "se o príncipe, os aristocratas e o povo governam em conjunto o Estado, podem com facilidade controlar se mutuamente". Lembra o exemplo de Licurgo cuija legislação tornou Esperta estável por oitocentos anos, de tal forma soube contrabalançar o poder do rei, da aristocracia e do povo. E critica Sólon, legislador de Atenas que não reprimiu "a insolência dos aristocratas e a licença da multidão".

A Roma republicana também teve a virtude do equilíbrio
De início, os cônsules e os senadores representavam a mistura da monarquia e a aristocracia, mas, com o tempo, as desavenças entre patrícios e plebeus fizeram com que aqueles cedessem para não perder tudo devido ao ressentimento do povo. Surgiram então os tribunos da plebe, instituição representativa do governo popular. É Maquiavel quem diz: "A sorte favoreceu Roma de tal modo que, embora tenha passado da monarquia à aristocracia e ao governo popular, seguindo a degradação provocada pelas causas que estudamos, o poder real não cedeu toda a sua autoridade para os aristocratas, nem o poder destes foi todo transferido para o povo. 0 equilíbrio dos três poderes fez, assim, com que nascesse uma república perfeita". Maquiavel reitera essa posição quando nota que, no seu tempo, a república de Veneza e a monarquia inglesa são estáveis porque têm um governo misto. Os governos simples, ao contrário, são "pestíferos" peia breve duração. Por isso, defende a reforma do Estado de Florença em um texto enviado a Leão X, propondo a seguinte divisão:

-Um governo vitalício de 65 cidadãos, entre os quais é escolhido o gonfaloneiro;
-Um Senado composto de duzentos membros, o Conselho dos Escolhidos;
-Um Conselho Popular constituído de seiscentos a mil cidadãos.


Fonte: Maquiavel - a lógica da força, Ed. Moderna, 1993, pág. 71 e 73

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

MULTIDÃO E CONSELHEIROS

Maquiavel elogia ao povo quando diz: "não é sem razão que se compara a voz do povo à voz de Deus: porque vê-se a opinião universal produzir efeitos tão maravilhosos em suas predições, que parece haver nela uma virtù oculta para prever o seu mal e o seu bem."(Discorsi, I, 58: 141)
Mas o povo pode se enganar. "O povo só pode enfrentar o engano a que é induzido pelos homens ou pelos acontecimentos se tiver a sorte de encontrar alguém que seja sábio e confiável para esclarecê-lo sobre o que é bom e o que é mau (Discorsi, I, 53: 134) Sob o domínio das paixões, a massa pode produzir grandes tumultos e desordens; porém, torna-se fácil contê-la, pois, como age sob impulso, basta proteger-se de sua primeira arremetida que os ânimos logo se arrefecem e ela perde a confiança na sua própria força. Para Maquiavel a multidão precisa de conselheiros para distinguir a verdade da aparência enganosa, e de um chefe para dirigi-la ou comandá-la na ação, dada sua incapacidade de autodisciplina e auto-organização. Maquiavel intuiu a necessidade de uma participação ativa do povo na vida político-social, mas está longe de Ter tirado dessa premissas todas as implicações que deveriam logicamente decorrer delas. Mas, com certeza, a explicação mais plausível para as flutuações na avaliação das qualidades populares deve ser buscada nas razões apresentadas pelo próprio autor: na diferença que ele estabelece entre uma multidão solta, sem freio, e a multidão regulada pelas leis, como a romana. (Discorsi, I, 58: 141)

Fonte:Maquiavel, Lídia Maria Rodrigo, Ed. Vozes, 2002, p. 105 e 106

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Livro - Maquiavel o Poder: História e Marketing


Esse livro é um marco na abordagem de Maquiavel e do próprio marketing político no Brasil.

Lançado no Recife, em 1991, em edição do autor, despertou atenção e foi objeto de uma crítica amplamente favorável na imprensa nacional. Em seguida foi lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro e na Feira Internacional do Livro, em Frankfourt, Alemanha.

Após o lançamento da segunda edição, pela Editora Martin Claret, em dezembro de 1999, MAQUIAVEL O PODER esteve em todas as listas de livros mais vendidos do País.

Depois de sucessivas edições, o livro passou, a partir de 2004, a integrar a coleção A OBRA PRIMA DE CADA AUTOR, da Martin Claret, em formado de bolso.

MAQUIAVEL O PODER é o único livro de autor vivo a integrar a coleção, que reúne os maiores clássicos, nacionais e estrangeiros, nos campos da ficção e não ficção.

O prefácio é do atual senador e ex-ministro Cristovam Buarque (na época Cristovam era reitor da Universidade de Brasília) e a apresentação é da jornalista e historiadora Leda Rivas.

Fonte:Nicolau Maquiavel

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Maquiavel para Mulheres: a Princesa


Com base nas estratégias das grandes mulheres guerreiras da história, Rubin traça uma mistura inédita e excêntrica: generalíssimas como Joana D'Arc e Golda Meir, Anna Akhmatova, Billie Holiday e Scheherazade, entre outras. A autora oferece uma estratégia corajosa, que combina as táticas de amor e de guerra. A exemplo de O Príncipe, este curto e poderoso tratado chama a atenção das leitoras para que não aceitem menos do que a vitória completa. O livro trabalha com a intuição em vez da lógica, e provoca paixão e indignação.


Fonte: Submarino

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Livro - Maquiavel No Inferno - Sebastian De Grazia




Quem foi, como viveu e quais eram exatamente as idéias de Niccolò Machiavelli, esse prolífico autor de crônicas históricas, tratados políticos, poemas, canções e peças de teatro, e cujas concepções tanto influenciaram o pensamento político moderno? Ao procurar responder a essas questões, Sebastian de Grazia escreveu uma biografia exemplar - ganhadora do Pulitzer de 1989 -, na qual os fatos da vida do pensador florentino - a família, as viagens, os temores e alegrias, as amizades, os amores - são sutilmente entretecidos a uma detida análise tanto de suas polêmicas idéias quanto das circunstâncias em que foram sendo elaboradas até se constituírem uma abrangente visão dos homens e da arte de governá-los.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Paul Larivaille: a Itália de Maquiavel

Em sua obra, o francês contextualiza o pensamento maquiavélico, trazendo à tona - e explicando - o mundo que gerou o autor de O Príncipe, o fundador da ciência política

por Rodrigo Cavalcante

O italiano Nicolau Maquiavel não viveu muito. Nasceu em 1469 e morreu em 1527. Em pouco mais de meio século de existência, no entanto, revolucionou o pensamento político. Ele olhou para o mundo a sua volta e criou uma nova ciência, a ciência política. Quando Maquiavel tinha 17 anos, Botticelli acabava de pintar o Nascimento de Vênus. Quando fez 23, Cristóvão Colombo descobria a América. Aos 37, Leonardo Da Vinci finalizava a Monaliza. Quando completou 34, Michelangelo acabava seu Davi. Além de todos esses gênios serem italianos, como Maquiavel, tinham outra coisa em comum: eram financiados por banqueiros como os Medici, cujas filiais se espalhavam de Veneza a Londres, no início do que viria a ser chamado, cinco séculos depois, de economia global.

Por trás dessa Itália renascentista, porém, escondia-se outra península, marcada pela violência, corrupção, assassinatos políticos e escândalos sexuais envolvendo até papas. Sem levar em conta a turbulência do período, não há como entender a natureza dos conselhos de Maquiavel em O Príncipe – clássico do pensamento político ocidental. Fora de contexto, a obra, espécie de manual realista de auto-ajuda para governantes, parece cruel – ou “maquiavélica”, termo que virou sinônimo de qualquer trama ardilosa para se atingir um objetivo. Poucos se dão conta de que durante a vida de Maquiavel a própria Itália não existia. E esse é o tema do livro A Itália no Tempo de Maquiavel, do pensador político francês Paul Larivaille.

Em 1469, data do nascimento de Nicolau Maquiavel, a Itália ainda não era um país, mas um aglomerado de Estados, com tamanhos diferentes, formas de governos distintas e até culturalmente diversos. Cinco grandes Estados ditavam os destinos da península: o Reino de Nápoles, os Estados Pontifícios (que englobavam Roma), o Ducado de Milão, a República de Veneza e o Estado Florentino, onde nasceu o pensador político. Em torno dessas potências, aglutinavam-se Estados menores. Essa falta de unidade provocava um clima de insegurança na região. As quedas de governos eram comuns e, como nenhum dos governos tinha força suficiente para subjugar os demais em torno de um poder único, a península terminava sendo presa fácil para potências como a Espanha e a França – essa última invadiu Florença, em 1494. Para piorar a situação, os exércitos constituíam-se por mercenários corruptos.

Mas se a Itália não era um país, como então falar de uma Itália no tempo de Maquiavel? Segundo o historiador Paul Larivaille, os povos da península, apesar das diferenças, compartilhavam de um passado comum: eram os herdeiros da civilização romana, considerada fonte de cultura e arte de viver. Na época, prevalecia o sentimento de que para reviver o legado de Roma bastava apenas libertar a criatividade de pensadores e artistas das amarras do “sono medieval”. Para tal tarefa, entrou em cena a nova elite de mercadores e banqueiros. As companhias florentinas do século 15 encarnaram o papel de financiadoras da arte. De acordo com o diário de um viajante, em 1472, a cidade já tinha 33 bancos “com balcão e tapete no exterior que efetuam operações tanto de câmbio quanto comerciais”. Algumas dessas companhias, como as que pertenciam à família Medici, firmaram sua reputação com agências em cidades como Roma, Londres, Veneza e Avignon.

Inicialmente, tais bancos surgiram para facilitar as transações comerciais que envolviam moedas diferentes, lucrando com a taxa de câmbio. Mas rapidamente perceberam que podiam lucrar mais participando do comércio e financiando empreendimentos internacionais. O negócio funcionava assim: se um mercador quisesse fazer uma viagem comercial à Índia, por exemplo, a companhia levantava o capital, dividindo o valor em cotas. Caso a viagem fosse bem-sucedida, os donos das cotas não apenas recuperavam o investimento, como ficavam com três quartos dos ganhos. Em meio às turbulentas epopéias marítimas da época, quando navios eram expostos a intempéries climáticas e à cobiça dos piratas, tratava-se de um investimento de risco. Para compensar os riscos, companhias como a dos Medici, engrossavam o patrimônio com negócios sólidos, como imóveis e indústrias. E, para perpetuar seu nome, as famílias começaram a investir, também, em arte.

Artistas e mecenas

Na Idade Média, não existia diferença entre arte e artesanato. Isso só mudou quando os ricos passaram a disputar o trabalho dos mais talentosos profissionais da época. Com o patrocínio da nobreza italiana, muitos pintores desvencilharam-se de obrigações menores para se concentrar em sua obra. O resultado foi a ascensão de nomes como Brunelleschi, Rafael, Donatello, Botticelli, Leonardo Da Vinci e Michelangelo, fazendo surgir dois novos personagens na sociedade: o mecenas e o artista. Em 1470, a cidade de Florença, por exemplo, contava com 31 ateliês de pintores, 26 de escultores e mais de 30 oficinas de ourives – número igual ao de casas bancárias. É verdade que até a primeira metade do século 15, eram poucos os artistas tratados com distinção.

Só na segunda metade do século 15 os artistas, de fato, alcançaram o posto de celebridades. Foi o caso de Botticelli (1445-1510). Sob a proteção dos Medici, ele criou um novo estilo: utilizava temas sagrados, como na tela Adoração dos Magos, mas representava os personagens com retratos de florentinos. Rafael (1423-1520) caiu nas graças da Igreja Romana e logo passou a ser admirado fora do Vaticano. Leonardo Da Vinci (1452-1519) conseguia inúmeras encomendas apesar da reputação de inconstante. Mas foi Michelangelo (1475-1564) o artista que melhor encarnou o momento. Mimado pelos Medici e pela Igreja, desprezava a amizade de príncipes e papas para se concentrar em sua arte “divina”. Um poder impensável para os artistas que o precederam.

Politicamente, a Itália de Maquiavel distinguia-se do resto da Europa. A norma eram monarquias em que reis representavam Deus na Terra. Mas, na maior parte da península (com exceção do reino de Nápoles e dos Estados Pontifícios), cidades-estados tinham regimes tão avançados que incluíam até repúblicas, como a de Florença, em que famílias tradicionais disputavam o poder. Só que, para conquistar tal poder, a família tinha de dominar os meandros de um sistema político complexo. Como os mandatos eleitorais variavam entre 2 e 4 meses, cerca de 150 pessoas revezavam-se no governo de uma cidade num único ano. A rotatividade, no entanto, não significava diversidade no comando. Só podiam votar ou se candidatar cidadãos abastados ou tradicionais. Além disso, sob a fachada de um regime democrático, o poder concentrava-se nas mãos das famílias poderosas , que interfeririam no processo eleitoral. O sucesso político dependia de sorte e astúcia para se esquivar das ardilosas conspirações, incluindo emboscadas e assassinatos em locais públicos.

Na Itália de Maquiavel, assassinatos e escândalos sexuais aconteciam até no Vaticano. Segundo Paul Johnson, os papas da Renascença eram vistos mais como príncipes pecadores do que como líderes espirituais. O papa Alexandre VI, por exemplo, teve uma vida tão devassa que promoveu o irmão de uma de suas amantes ao posto de cardeal. As conspirações articuladas por sua família, os Borgia, tornariam-se folclóricas. Alexandre VI casou e descasou sua filha Lucrécia Borgia para aumentar seu patrimônio e tramava envenenamentos em conluio com o filho, César Borgia. Os Medici também “elegeram” papas da família: em 1513, Giovano de Medici, filho de Lourenço de Medici, tornou-se Leão X, cujo pontificado seria marcado pela ascensão de familiares aos postos importantes do Vaticano. Apesar da bandalheira, a vaidade papal serviu de motor para a execução de alguns dos maiores monumentos artísticos da civilização ocidental, da Capela Sistina à Basílica de São Pedro. Se os próprios papas agiam como estadistas sem ética em busca do poder, como deveria agir um príncipe para manter-se soberano?

A política como ela é

Maquiavel é considerado o fundador da ciência política justamente por tentar responder a pergunta acima de maneira realista: em sua obra, ele trata o jogo do poder como ele é – e não como deveria ser. O florentino confrontou o idealismo de pensadores da Grécia antiga, como Aristóteles, e de filósofos medievais, como Santo Agostinho. Fez isso valendo-se de sua experiência na chancelaria da administração pública de Florença, onde o que viu era diferente do que lia. Concluiu que a política não era tarefa para idealistas. E, sim, para príncipes dotados de astúcia, sagacidade e violência. Segundo o ensaísta americano Isaiah Berlin, Maquiavel apenas escancarou o óbvio: a ética cristã da compaixão nem sempre era compatível com a ética do Estado. Ou seja: o soberano que quisesse manter a paz e proteger seu principado teria que agir como raposa. Tudo para enfrentar os caprichos da Fortuna, a deusa pagã representada por uma mulher girando uma enorme roda em que homens ora estavam em cima, ora em baixo: a roda da Fortuna.

No final de sua vida, ironicamente, a Fortuna quis que Nicolau Maquiavel não fosse reconhecido por seu trabalho. Por ter ocupado cargos na administração florentina no período em que os Medici haviam sido expulsos da cidade, ele perdera o seu posto na chancelaria assim que a poderosa família voltou ao poder, em 1512. A partir daí, viveu no campo. Pela manhã, jogava cartas com lenhadores e homens simples. À noite, trocava as roupas enlameadas pelos trajes oficiais e se dirigia ao gabinete de trabalho onde lia, escrevia e dizia encontrar-se “com os homens da Antigüidade”. Foi dessas “conversas” que nasceria o clássico O Príncipe. Dedicado a Lorenço de Medici, a obra nasceu de uma tentativa do pensador de voltar ao governo. Lourenço não entendeu o recado, e Maquiavel morreu, em 1527, longe do poder.

Livro

A Itália no Tempo de Maquiavel, Paul Larivaille, Companhia das Letras, 1991. R$ 44

Fonte: Historia.abril

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Livro: Maquiavel da coleção Os Pensadores



O PRINCÍPE E ESCRITOS POLÍTICOS

Ed. Nova Cultural, São Paulo, 1991.

O período compreendido entre os últimos trinta anos do século XV e as três primeiras décadas do século XVI, época em que viveu Nicolau Maquiavel, é caracterizado pela decadência das cidades- estado italianas, sobretudo Florença. Renunciando as absrações a obra de Maquiavel consegue manter-se sempre próxima dos fatos e das situações concretas. Assim ele formula uma "arte de governar"até hoje viva e polêmica.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Livro Aplicando Maquiavel nodia-a-dia


A partir dos princípios de Maquiavel na secular obra O Príncipe, Fernando César Gregório buscou a essência da mensagem transmitida na Antiguidade para mostrar-nos que ela é válida para os tempos modernos. Como uma das figuras mais polêmicas da História, Maquiavel foi também um dos mais originais pensadores do Renascimento, que escreveu como um príncipe deveria agir para conquistar e, depois, manter um Estado.

Os mesmos conselhos dados por Maquiavel em sua época se prestam para que as pessoas da atualidade conquistem e mantenham seu "Estado", que pode estar representado por seu patrimônio, sua reputação, sua família, seu emprego ou cargo, por sua empresa, enfim, por tudo aquilo que há de valor na vida de cada um. Esta é uma obra que pode ser lida tanto por iniciantes como por aqueles que já conquistaram o seu "Estado", ou seja, por todos que não podem fugir das lides do real cotidiano, que precisam arregaçar as mangas e enfrentar a luta efetiva do dia-a-dia. Orelhas: Fernando César Gregório possui formação acadêmica em Engenharia e Direito.