segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Documento inédito revela 'desgraça' de Maquiavel


Maquiavel (Getty)
Um professor da Universidade de Manchester (Grã-Bretanha) anunciou ter descoberto a versão original de uma ordem de prisão do escritor e filósofo Nicolau Maquiavel (1469-1527), autor do famoso livro O Príncipe.
O professor Stephen Milner explicou à BBC ter encontrado o documento, datado de 1513, durante suas pesquisas para entender como as informações circulavam nas cidades da época.

E a ordem pela prisão de Maquiavel foi dada há exatos 500 anos na cidade de Florença, onde o pensador, então influente e ativo na diplomacia da época, foi acusado de fazer parte de uma suposta conspiração para derrubar a facção Medici do poder.
O aviso de "procurado" colocou-o como "inimigo público número 1", marcou sua "desgraça" e acabou sendo muito importante para a obra de Maquiavel, segundo Milner. No mesmo dia, diz o professor, o pensador acabou sendo detido, torturado e mantido em prisão domiciliar.
"O documento marcou a desgraça de um dos escritores políticos mais influentes do mundo", relata o professor. "O Príncipe foi escrito (no mesmo ano) na vã esperança de (Maquiavel) cair nas graças e obter emprego com os Medici - mas não há nenhuma prova de que eles sequer o tenham lido."

Clássico

Maquiavel morreu 14 anos depois, na pobreza.
Mas O Príncipe se tornou um clássico e até hoje influencia líderes, "pregando o sacrifício da virtude e da moralidade pela manutenção do poder a todos os custos", ressalta a Universidade de Manchester.
"(A obra) foi atualizada para ser aplicada em áreas como bancos, finanças, negócios e política."
Daí vem o termo "maquiavélico".
Para Milner, O Príncipe é um "manual atemporal de auto-apresentação e de gerenciamento de reputação pessoal".

Fonte: BBC

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Abolição nos EUA guarda coincidências com mensalão


 (ou de como o Presidente Lincoln e seu gabinete poderiam ter se saído se a aprovação da 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, tal como sucedeu, tivesse sido julgada no Brasil)
 Sem iniciar este assunto com a clássica alusão à ética de resultados mencionada por Max Webber ou citar Nicolau Maquiavel, tão assertivo no afirmar que ao príncipe todos os meios estão justificados pela nobreza dos fins, certo é que a aprovação da emenda à constituição americana que aboliu a escravatura na mais festejada democracia do planeta (refiro-me à Décima Terceira Emenda, de 1865), sob a Presidência de Abraham Lincoln, deu-se em circunstâncias verdadeiramente peculiares. Preocupado em manter a União, consolidando-a, além de construir uma grande nação para o futuro, enfrentava ele a feroz hostilidadeda rural e escravocrata da bancada oposicionista (Democratas) e assistia, com tristeza, algumas defecções no seu próprio partido, o Republicano. Na Casa dos Representantes, portanto, o prognóstico era o mais sombrio: derrota inevitável, com a rejeição da emenda libertária e manutenção da monstruosa chaga do cativeiro negro.
Paralelamente a esse monumental esforço de construção social, o “Pai Abe” —assim o tratavam, carinhosamente, seus compatriotas—, formulador com voo de águia, que planejava para grandes distâncias e futuro remoto, vivia o terrível drama da guerra civil, separatista, a secessão. Duas gigantescas batalhas, travadas em distintas arenas: a política e a militar (nesta, discutia, pessoalmente, estratégias de combate com o general Ulysses Grant). Ambas as frentes mostravam-se bem do tamanho da grandeza de alma e de caráter do desafiado.
O tema é agora oportuno, não apenas pela notabilidade da recente obra cinematográfica Lincoln, que permite a todo povo um imediato e fácil vislumbre dessa tragédia, fechada com a pistola Derringer, calibre 44, de John Wilkes Booth, que o assassinou no Teatro Ford, mas também pelas intrigantes coincidências com supostas cooptações de votos no Parlamento do Brasil, que resultaram na aprovação da Emenda da Reeleição (governo Fernando Henrique Cardoso) e também no mais recente e celebérrimo julgamento no Supremo Tribunal Federal, denominado caso “mensalão”, cujo escopo seria a aprovação de reformas sociais de profundidade e de combate à desigualdade (governo Lula).
Na saga americana, o então secretário de Estado de Lincoln, William Henry Seward (um híbrido de chanceler e chefe da Casa Civil), persuadido da obstinação presidencial quanto à causa abolicionista e da isonomia, e ciente da derrota iminente no parlamento, aconselhou-o a não se expor tanto na tarefa de conquistar votos parlamentares, missão delicada e que reputava erosiva à imagem do governante. É que no colegiado-alvo havia de tudo, desde patriotas sinceros e honestos a reles interesseiros, aproveitadores, autocratas empedernidos, caracteres corrompidos e conservadores extremados. Afinal, o parlamento é a projeção fiel da sociedade que o elege, não é mesmo?
Daí a utilização do concurso habilidoso —mas não escrupuloso— de certo personagem de fora do governo, para a abordagem dos deputados americanos. Argumentos de persuasão? Todos foram usados. Rigorosamente todos, sem exceção...
Do oferecimento de cargos públicos a vantagens materiais mais tácteis, todos os empenhos, publicáveis ou não, foram feitos para aprovar a emenda que varreria o horror da escravidão do território americano.
O cenário não é mesmo sugestivo e intrigante? A emenda foi aprovada, a escravidão erradicada, para sempre, e a guerra de secessão, vencida, restando íntegra a unidade da Federação americana.
Método de ação governamental passível de censura, mas eficaz, a se contrapor à necessária ética da governabilidade, nem sempre suficiente, tudo com vistas à consecução do objetivo de realizar o bem comum e preservar os superiores interesses da coletividade: eis aí um enorme dilema político posto aos que governam.
Submeta-se agora, em exercício de ficção, esse longo e intrincado processo que extinguiu a escravidão e a guerra separatista na nação americana —tal como lá foi realmente operado—, a julgamento criminal no Brasil de hoje. Seriam aqueles construtores da nação ianque também condenados como bandoleiros ou quadrilheiros comuns, salteadores e falsários (exatamente iguais àqueles que nas ruas rapinam por mera cupidez), como cá está a ocorrer? Que juízo disso fariam os críticos assépticos, descompromissados das grandes responsabilidades das decisões coletivas, e os burocratas de gabinetes? E os —sempre implacáveis— acusadores profissionais, como veriam a questão da tramitação da Emenda 13 da Constituição Americana? Nela veriam crimes de meios não importando os resultados alcançados? Optariam pela possibilidade de perdurar a escravidão, com suas abjetas consequências, a tudo se sobrepondo a exemplar condenação dos protagonistas envolvidos naquele processo legislativo?
Cabe refletir.
José Roberto Batochio é advogado criminalista, foi presidente Nacional da OAB, da OAB-SP, da Aasp (Associação dos Advogados de São Paulo) e deputado federal (PDT-SP).
Revista Consultor Jurídico, 21 de fevereiro de 2013

Fonte:Conjur

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Maquiavelismo à brasileira

Por Otavio Frias Filho em 12/06/2012 na edição 698.


O primeiro volume da biografia do jornalista Lira Neto sobre Getúlio Vargas merece ser recebido com grande interesse. A publicação de Getúlio – Dos Anos de Formação à Conquista do Poder (1882-1930)[Companhia das Letras, 630 págs., R$ 52,50] dá início a uma série de três livros, a ser concluída em 2014, configurando a mais completa biografia sobre o maior líder político brasileiro.
A julgar pela primeira parte, o trabalho vem sendo executado com meticulosidade exaustiva. É gigantesca a massa de documentos oficiais, livros, artigos na imprensa, memórias e testemunhos que o autor e seus auxiliares dominaram para compor uma narrativa decerto prolixa, mas sempre legível e muitas vezes trepidante.
Todo biógrafo acredita que a vida sob seu exame é extraordinária. Mesmo assim, Lira Neto mantém isenção exemplar em meio às paixões que cercaram seu personagem e dividiram o país.
Não escreve para enaltecer ou para detratar, mas como repórter – atividade que exerceu em Fortaleza antes de se mudar para São Paulo, onde se converteu em biógrafo profissional na década passada, ao publicar uma sequência de livros sobre o escritor José de Alencar, o marechal-presidente Castello Branco, a cantora Maysa e o líder messiânico Padre Cícero.
Talvez se possa atribuir a essa disciplina de repórter a principal lacuna em livro tão bem elaborado. Ainda que este não seja um trabalho de história, falta-lhe ambição analítica, alcance de interpretação e densidade explicativa.
Enquanto a camada aparente dos acontecimentos é descrita com suntuosidade de minúcias (ficamos sabendo até a marca da limusine que conduziu o presidente Washington Luís ao sair deposto do Palácio), as relações de força subjacentes são pouco esboçadas. O autor dispensa, assim, muita possibilidade de articular a vida do biografado aos fatores impessoais que ajudaram a moldá-la.
Terá pesado, nessa escolha, o propósito de tornar a leitura atrativa para um público amplo, menos interessado em implicações sociológicas e controvérsias entre historiadores do que no drama pessoal de figura tão hipnótica.
Lira Neto adota a tendência de todo biógrafo contemporâneo à visada cinematográfica, rica em peripécias e lances de expressão imagética, como se concebida para dar base a um futuro roteiro de cinema ou televisão – talvez ambos. Parece ter resistido, porém, à tentação de fantasiar detalhes e turbinar diálogos, que surgem em profusão, mas sempre alicerçados em alguma fonte escrita.
Poder
Getúlio nasceu em São Borja, na fronteira com a Argentina, em 1882, filho de um potentado local. Foi promotor público, deputado, ministro da Fazenda de Washington Luís, governador do Rio Grande do Sul e candidato a presidente da República. Derrotado na eleição de 1930, fraudada como as anteriores, fez-se líder revolucionário e tomou o poder como chefe de um governo provisório.
Foi confirmado presidente pelo voto indireto em 1934. Esmagou uma insurreição liberal (1932), outra comunista (1935) e ainda outra fascista (1938), tornou-se ditador em 1937 com apoio dos militares e foi por eles deposto em 1945. Reconduzido ao cargo pelo voto popular em 1950, suicidou-se em meio à aguda crise política de agosto de 1954.
Contribuiu como ninguém para ampliar e modernizar o aparelho do Estado, impulsionar a industrialização, inaugurar direitos sociais e introduzir a política de massas no cenário brasileiro. Viveu sob a marca da ambivalência: conciliador e autoritário, modernizante e paternalista, conservador e progressista conforme a ocasião.
Distinguiu-se ainda por duas características incomuns. Exerceu uma ditadura feroz entre 1937 e 1945, mas nunca foi pessoalmente acusado de corrupção. Era um político astucioso e manipulador, que obviamente gostava do poder, mas ao exercê-lo parecia ter em mente objetivos nacionais que transcendiam a política miúda.
Formação
Este primeiro volume trata da parte menos conhecida da vida de Vargas, “dos anos de formação à conquista do poder”, conforme o subtítulo. É inevitável ler a obra como se fosse historiografia reversa ou premonitória, à procura de sinais que antecipem o Getúlio que viria depois e que permitam esclarecer retrospectivamente essa personalidade elusiva, apelidada de “Esfinge” por causa das intenções indecifráveis e do laconismo sorridente.
Como foi possível, por exemplo, que um político provinciano, oriundo de um Estado periférico, chegasse ao ápice nacional numa estrutura tão impermeável como a da política daquela época?
O panorama biográfico dessa fase inicial ressalta como o Rio Grande ganhou vulto econômico e militar a partir da década de 1910, credenciando-se a atuar como elemento de arbitragem quando as elites políticas centrais – paulista e mineira – entravam em desacerto.
Essa capacidade se potencializou a partir de 1923, depois que o acordo de Pedras Altas, orquestrado por Vargas, encerrou três décadas de confronto entre as duas facções que disputavam o poder no Estado sulino.
De um lado estavam os liberais, chamados de maragatos ou federalistas, ligados a uma linhagem de descentralização, parlamentarismo e livre-comércio que provinha dos tempos do Império. De outro estavam os republicanos, chamados de chimangos ou pica-paus, influenciados pela doutrina positivista e adeptos de uma concepção “científica” de governo autoritário. Grosso modo, aqueles prevaleciam na região fronteiriça; estes, na litorânea.
Embora os republicanos tenham controlado a política gaúcha na maior parte desse tempo, enfrentaram resistências intermitentes que deram origem a duas guerras civis, em 1893-95 e 1923.
Getúlio, que tinha parentes nos dois lados do conflito, cresceu em meio a essas dissensões, à sombra do governador republicano Borges de Medeiros, eleito cinco vezes para o cargo. Sua escola de conciliação mesclava movimentos de intimidação e apaziguamento.
O regime gaúcho não diferia do coronelismo político vigente no resto do país, mas tinha uma peculiaridade: suas facções se achavam imbuídas de colorido ideológico nítido e coerente. Como se expressassem, de forma concentrada, a oposição mais difusa entre liberalismo elitista e estatismo autoritário que seria o eixo da política nacional de 1930 a finais do século, com ecos que ainda ressoam.
Cálculo
Evidentemente, Vargas não era um político vulgar. Desde cedo, destacou-se pelo cálculo racional e pela metódica acumulação de poder. É notável o contraste com a turbulência impensada dos que o cercam, a começar dos irmãos, arruaceiros cujas trapalhadas criminais Getúlio tratou de abafar, nem sempre por meios legítimos.
Esse aspecto atávico, tribal, violento (seu pai lutara na Guerra do Paraguai, seu avô combatera na Revolução Farroupilha), estaria presente até o paroxismo de 1954, desencadeado pelo atentado contra Carlos Lacerda, canhestramente urdido nos subterrâneos do Palácio do Catete.
Relembramos ao longo do livro como foi lenta a erosão da República Velha, como demorou até que oligarcas dissidentes e líderes das revoltas tenentistas articulassem uma candidatura viável de oposição à Presidência, apoiada no desgaste crescente do governo central, sobretudo na opinião pública das grandes cidades. E ainda assim Getúlio perdeu.
Parece certo que o desfecho revolucionário teria sido evitado se Washington Luís fosse menos intransigente na imposição de seu sucessor e se não sobreviesse o assassinato –num crime passional – do candidato a vice na chapa de Getúlio, João Pessoa, estopim psicológico da deflagração. Mais certo ainda é que somente a crise econômica de 1929 foi capaz de esvair a sustentação social de um regime que já caducava.
É impressionante a cautela quase apática com que Vargas navegou pela vertiginosa sucessão de episódios. Hesita em aceitar a candidatura; candidato, tenta um acordo secreto com o governo central; derrotado, conforma-se. Quem organiza a insurreição é o círculo imediato de assessores, quase todos amigos de juventude – Lindolfo Collor, João Neves da Fontoura, Flores da Cunha e Oswaldo Aranha.
Até semanas antes de romper com a legalidade, a preocupação de Getúlio é evitar que seu controle da política estadual sofra retaliações do futuro presidente Júlio Prestes, que jamais tomaria posse.
Havia maquiavelismo nessa prudência, mas fica evidente que também houve muita sorte ou acaso – “fortuna” – nesse maquiavelismo. A posteriori, quando o encadeamento dos fatos já premiou o vencedor, a trajetória inteira tende a se apresentar como obra de arte política, sem deixar entrever o quanto terá havido de dúvida, imprevisto e balbúrdia.
Da mesma maneira, o que chamamos de “carisma” do líder – como definir ou identificar algo tão etéreo? – só cristaliza simbolicamente o êxito já consolidado.
Exceto quanto à revelação de alguns detalhes inéditos e episódios secundários, o livro de Lira Neto não parece trazer contribuição original ao relato de uma vida já tão esmiuçada e conhecida. Ainda assim é uma colossal reconstituição dessa existência única na história brasileira, expressa num andamento romanesco e palpitante.
Grande parte do mistério que emana do vulto de Getúlio Vargas se esvanece, mas perdura um resíduo irredutível, enigmático, desse homem sobre o qual se disse que podia “tirar as meias sem descalçar os sapatos” e que preconizava, estranhamente, que “na luta, vencer é adaptar-se”.
***
[Otavio Frias Filho é diretor de Redação da Folha de S.Paulo, escreveu Queda Livre (Companhia das Letras) e Seleção Natural (Publifolha)]

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Jesus cristo e Maquiavel


Nicolau Maquiavel e Jesus Cristo são personagens diferentes de séculos diferentes. Maquiavel do século 16. Jesus rachou a história e atravessa milênios. Maquiavel escreveu “O Príncipe” em torno de 1513. Jesus nada escreveu. Ambos são célebres em matéria de ética, mas com filosofias frontalmente opostas. Maquiavel coloca seu livro a serviço do poder abusivo dos Príncipes. Jesus insurge-se contra os tiranos e os poderosos. Mas o impressionante é que ambos são atualíssimos quando nosso assunto é política.
Maquiavel ensina como conquistar e manter o poder. Para ele, todos os meios são legítimos. Ele dita normas com astúcia. Com linguagem direta e sedutora, aponta truques políticos e métodos inescrupulosos que permitem anular adversários e subjugar o povo. E aconselha suprimir a liberdade dos cidadãos, para não perder o poder.
Jesus, o chamado Cristo, tratava seus interlocutores como pessoas inteligentes e livres, como espécie racional situada acima da escala das coisas. Por isso, espantava-se quando o ser humano capitulava e abdicava de sua dignidade e liberdade. Ele não se conformava ao ver que as pessoas entregavam o potencial de suas vidas e de seus direitos aos que exercem o poder.
Maquiavel ensina como dominar o povo, enganando-o. E como imobilizá-lo, destruindo-lhe a liberdade. Jesus incitava a mobilização voluntária contra a dominação e uma de suas muitas contribuições foi mostrar que a pessoa humana enterra sua dignidade e liberdade para consolidar desastres.
Em Jesus, o poder só tinha sentido se fosse dado por Deus. Por sua importância, foi um homem livre, indeterminado, simples e incorruptível. Como peregrino tornou-se cidadão errante e transitivo. Não permaneceu atado a um ponto fixo. Não se prendeu em essências e fez amizade com cobradores, publicanos, prostitutas e mendigos, coisa que Maquiavel não aconselharia ao seu Príncipe.
Liberdade para Jesus Cristo não se referia apenas ao deslocamento espacial e geográfico. Era mais que isso, era um sair de si que implica sair de um estilo de vida. É refutar situações históricas e superar condições sociais. É mudar de mentalidade. É passar da ingenuidade à criticidade, do conformismo à participação.
Para Maquiavel, liberdade é um ato perigoso. Ele diz que o Príncipe deve emergir sobre a servidão que humilha e usar o poder que dobra. Ensinando o primeiro passo na série de vários passos, que devem dar numa caminhada incessantemente violenta e paranoica.
Segundo Maquiavel, a liberdade do povo deve ser controlada de acordo com as conveniências do Príncipe. Para Jesus, ela é adquirida pelo conhecimento de si que está camuflado. Uma vez descoberta, mostra o que existe e o que não existe. Desvela o que está velado, desmudece o que está calado, descativa o que está preso. No sistema de Maquiavel é frequente limitar e aniquilar, ao passo que, em Jesus, a liberdade é um projeto infinito. Mas, como os surdos reconhecem que os cegos estão errados em julgar as cores, mantendo-se firmes na opinião de que cabe apenas aos surdos julgar a música, nossos políticos ainda aplicam Maquiavel se dizendo cristãos.
Padre Durval Baranowske
autor de “O QUE DIZEM OS SANTOS”


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

deusa Fortuna da mitologia romana

Na mitologia romana, Fortuna era a deusa da sorte. Geralmente, era representada com a visão tapada, como a Justiça, porque ela manifestava seus propósitos aleatoriamente. Para o italiano Nicolau Maquiavel, o pensador florentino que fundou a ciência política moderna, no século XVI, a Fortuna era um dos requisitos para o príncipe conservar o poder. O príncipe deveria ter “virtù” – conceito que resume as qualidades necessárias para exercer o poder –, mas também contar com a “fortuna”, entendida como as circunstâncias que não podem ser determinadas e controladas. O sul-africano William Kentridge, de 57 anos, um dos mais importantes artistas contemporâneos, elegeu a Fortuna como um dos princípios de sua obra. Ele não a define como um mero lance fortuito da sorte. Para Kentridge, a obra de arte é resultado de “algo diferente do frio acaso estatístico, mas também de algo fora do controle racional”. Segundo ele, as imagens estão permanentemente em construção e são produtos de um jogo em que, ao mesmo tempo, não há nem um plano nem o acaso – e isso constitui a tal Fortuna.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Aluno de sociologia diz que filósofos tornaram Enem 'complicado'


O estudante universitário Fernando Morgato, de 24 anos, que realizou o Enem neste sábado (3), avalia que os textos de autores clássicos como Nicolau Maquiavel e do filósofo Charles Montesquieu deixaram a prova "complicada" para alunos do Ensino Médio que tiverm pouco contato com esse tipo de texto. Por estudar sociologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP), Morgato avalia que foi bem nessa parte da prova.
"São autores com os quais eu tive contato neste ano, tenho quase certeza que a galera mais jovem, que faz o exame pela primeira vez, não teve", afirmou. Os textos clássicos foram usados em perguntas interpretativas. Para Morgato, contudo, o esse tipo de texto é pouco usado no Ensino Médio, especialmente nas escolas públicas.
"Citaram trechos do livro do Norbert Elias, O Processo Civilizador, citaram Maquiavel, o terceiro capítulo de O Príncipe em que ele fala sobre conjuntura, Montesquieu, Habermas sobre a história da sociologia".
Se por um lado ele diz ter tido um bom desempenho, prevê que vai "bater canela" na prova deste domingo, que tem questões de matemática. "Meu forte é a área de humanas", diz
A opinião de Morgato contrasta com a do técnico em informática Roberto Carlos, de 36 anos. Para ele, apesar de serem textos clássicos, pouco conhecidos de muitos alunos, a interpretação das questões em si não foi difícil. "A prova como um todo foi um pouco mais difícil que a do ano passado, que estava muito fácil. Mas acho que o problema hoje não foram os textos", disse.
Início
A correria para entrar na Uninove começou por volta das 12h50. Alunos vinham de todas as direções preocupados com o horário. Muitos corriam na Estação Barra Funda, que fica ao lado, onde pessoas gritavam quantos minutos faltavam para as 13h. Exatamente neste horário, um estudante se jogou no chão para conseguir passar por debaixo do portão, que já era fechado.

A estudante Kathiane Oliveira, de 17 anos, contava que uma amiga próxima perdeu a prova no ano passado por 15 minutos. Por isso, Kathiane resolveu não dar brecha para o azar e chegou quase duas horas antes, às 11h20. “Dá pena. A pessoa estuda o ano inteiro e perde a prova. Não queria isso para mim”, disse a jovem, que veio acompanhada da mãe. Kathiane faz a prova para ajudar a compor sua nota no processo seletivo para o curso de medicina.
A massoterapeuta Fátima Maria Barreto, de 58 anos, era a primeira na fila. Ela é deficiente visual e chegou cedo para entregar um laudo médico sobre seu estado de saúde. Fátima fará a prova auxiliada por duas pessoas, uma para ler e outra para escrever o que ela ditar. Haverá ainda um fiscal acompanhando. “Quero fazer jornalismo e ser repórter. Se tiver que ir para coletiva de imprensa brigar por espaço entre os jornalistas eu vou”, afirmou a massoterapeuta, que é deficiente visual há dez anos. Ela perdeu a visão após ser atropelada em um cruzamento na Lapa, Zona Oeste da cidade.
Primeira da fila para entrar em local de prova, a deficiente visual Fátima Barreto (Foto: Márcio Pinho/G1)
Primeira da fila para entrar em local de prova, a
deficiente visual Fátima Barreto
(Foto: Márcio Pinho/G1)
Entre os inscritos para o Enem, vendedores tentavam lucrar com a prova. Canetas eram vendidas por R$ 2 e garrafas de água por R$ 2,50. A realização da prova também provoca sujeira, já que encartes com propagandas de cursinhos estão espalhados pelas calçadas.
Exame
A prova deste sábado tem 45 questões de múltipla escolha sobre ciências humanas e outras 45 sobre ciências da natureza. No domingo (4) acontece a segunda prova, com 45 questões de linguagens e códigos, que engloba português e inglês ou espanhol, e mais 45 questões de matemática. No segundo dia de provas, os candidatos terão ainda de fazer uma redação.

Ao todo, o Enem deste ano teve 5.791.287 inscritos. No Estado de São Paulo são mais de 932 mil. O custo total do governo para a aplicação das provas será de R$ 266.399.202,00.

Fonte: G1