quinta-feira, 6 de junho de 2013

De facínora a defensor da liberdade

Nos últimos 500 anos, a reputação de Maquiavel variou muito. O florentino foi visto como diabólico, mentiroso e adulador de déspotas. Só a partir do século 20 veio à tona a figura de um pensador multifacetado e complexo.

Em 21 de junho de 1527, Nicolau Maquiavel morria aos 58 anos, na miséria, sem recuperar, malgrado os esforços de muitos anos, o crédito dos governantes. Suas duas grandes obras, que lhe poderiam ter tirado do esquecimento, só viriam a público postumamente. O príncipe, cujo rascunho data de 1513, foi publicado em 1532, um ano depois de Comentário sobre a década de Tito Lívio, composta entre 1518 e 1519.
Ao longo da vida, Maquiavel havia criado desafetos, mas também fora querido pelos amigos e pela família. Estes o descrevem, na correspondência que resiste ao tempo, como um homem honesto e confiável, apesar de trocista, e como pai terno e dedicado.
Foi nas décadas seguintes à morte de Maquiavel que O príncipe alcançou notoriedade, embora mais por meio da infâmia do que da fama. O evento político que marca o surgimento do antimaquiavelismo é o Massacre da Noite de São Bartolomeu em 1572, quando os reis católicos ordenam a execução de milhares de protestantes. Daí em diante, Maquiavel passaria a ser visto como o diabólico, o mentiroso, o adulador de déspotas. Ele é quem estaria por trás das ações de Henrique III e da rainha Catarina de Médici, filha de Lorenzo de Médici, a quem O príncipe foi dedicado.
O Massacre da Noite de São Bartolomeu
O Massacre da Noite de São Bartolomeu em 1572, quando a família real francesa ordena a execução de milhares de protestantes, marca o surgimento do antimaquiavelismo, com a associação de seu nome às ações de Henrique III e da rainha Catarina de Médici. A matança é aqui retratada pelo pintor François Dubois (1529-1584).
Essa crença se difundiu depois da circulação do Discours sur les moyens de bien gouverner ou Anti-Machiavel (1576), de Innocent Gentillet, que fazia uma crítica avassaladora, mas caricatural, a O príncipe. Antes disso, o autor huguenote de Le reveille matin des françois (1574) já havia coberto Maquiavel de vitupérios, ao chamá-lo de o “maior malfeitor do mundo”.
Jean Bodin tampouco escapou da onda antimaquiaveliana, ao acusar Maquiavel de promover o ateísmo, louvar a tirania e a amoralidade. Tamanha intensidade dos ataques levou diferentes estudiosos da obra de Maquiavel, entre os quais Hans Baron e Edmond Beame, a sustentar que o antimaquiavelismo aparece como um fenômeno francês no contexto das guerras religiosas.
Jean Bodin acusa Maquiavel de promover o ateísmo, louvar a tirania e a amoralidade
O “Maquiavel assassino” da trilogia Rei Henrique VI, de William Shakespeare, atravessaria as fronteiras da França, alcançando a Inglaterra na crise entre rei e Parlamento, de 1628 a 1642. Exemplo disso é Henry Parker, o principal propagandista do Parlamento, que identificava nas ações de Carlos I “as iníquas políticas do florentino”, baseadas na máxima ‘divide e impera’.
No entanto, esse primeiro antimaquiavelismo, fortemente dependente de uma interpretação ideológica d’O príncipe, ganharia contornos menos nítidos. Começava a emergir a face republicana de Maquiavel.
Deixando O príncipe de lado, James Harrington e Marchamont Nedham introduziram no debate público a obra Comentário sobre a década de Tito Lívio, para defender a ideia de que somente num regime republicano, como a Roma enaltecida por Maquiavel, seria possível ser cidadão e homem livre. Mais do que isso, o modelo romano evidenciaria a necessidade de devoção ao bem comum como modo de permitir a sobrevivência da república. Agora, portanto, convivem no mesmo espaço o Maquiavel facínora d’O príncipe e o Maquiavel patriota do Comentário.
Henrique VI
Maquiavel apareceu em várias peças, no século 16, como uma figura ardilosa e sem escrúpulos. Em Henrique VI, peça em três partes de Shakespeare, ele é mencionado como assassino.
Mas houve ainda quem louvasse um aspecto de Maquiavel até então secundário: seu agudo realismo político. No verbete dedicado ao pensador florentino do Dicionário histórico e crítico (1697), Pierre Bayle nota, não sem ironia, que as reflexões contidas n’O príncipe não configuram um guia de como os governantes devem se comportar, mas o resultado das observações de como reis e papas efetivamente se comportam.
Tendo como professores os próprios príncipes o estudo do mundo, Maquiavel se convertia assim no grande teórico da razão de Estado, para quem a política se define como o conhecimento da arte de preservar o Estado. Esse tipo de análise também permite inferir que ética e política são esferas separadas de ação e, por isso, constituem distintas disciplinas do conhecimento.
No século 19, os teóricos alemães da real politik dirão que a obra de Maquiavel inaugura a modernidade graças a seu relativismo histórico e cientificismo frio. Porém, já no século 18, antes que o surgimento da ciência política estivesse vinculado ao nome de Maquiavel, Montesquieu e Jean-Jacques Rousseau revelaram-se discípulos do florentino, ao endossarem, com maiores ou menores restrições, o ideal republicano de virtude cívica. Em particular, Rousseau não dissociava O príncipe e os Comentários, argumentando que o retrato dos monarcas naquela primeira obra visava a suscitar o ódio contra os tiranos.
O Maquiavel que alcança o século 20 é multifacetado e complexo. Persiste com admirável força o fundador da ciência política, cujo objeto de reflexão é o poder
O Maquiavel que alcança o século 20 é multifacetado e complexo. Persiste com admirável força o fundador da ciência política, cujo objeto de reflexão é o poder, como sustentam distintos pensadores, entre os quais Benedetto Croce e Claude Lefort.
Forte também é o Maquiavel republicano, cujo modelo romano de liberdade seria capaz de fornecer uma alternativa consistente às várias vertentes do liberalismo, conforme preconizam Quentin Skinner e Philip Pettit.
E, surpreendentemente, sobrevive o corruptor da gente de bem, o cínico, o Old Nick, nome que os ingleses dão ao diabo. Representantes mais conhecidos desse primeiro antimaquiavelismo são Leo Strauss e Jacques Maritain, para os quais o pensamento de Maquiavel é essencialmente malévolo e imoral. Maritain, em veia antiquada, chegou ao ponto de afirmar que Maquiavel ensinou príncipes e conquistadores a aplicarem a crueldade sem escrúpulos. Ele seria, em suma, um precursor de Hitler.
Nos últimos 500 anos, Maquiavel foi ‘maquiaveliano’, ‘antimaquiaveliano’ e o mais das vezes ‘maquiavélico’, adquirindo esses termos um sentido relativo e flutuante, conforme a voga. O século 21 já configura novos ‘maquiavéis’ e ‘maquiavelismos’: o democrata, o pagão, o religioso. Ao que parece, Maquiavel e suas obras continuarão a repor o enigma. Mas felizmente podemos falar de Maquiavel sem ofender sua memória.


Eunice Ostrensky
Departamento de Ciência Política
Universidade de São Paulo

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A administração maquiavélica


Guerra, liderança, empresas, mercado concorrido, executivos cada vez mais preparados para qualquer desafio, espionagem, compra de informações, chantagem, corrupção, compromisso, trabalho. Varias destas ações são corriqueiras no meio administrativo. Tudo tem dois lados, pontos de vista, meios de se chegar lá. Não diferente de uma guerra prestes a estourar, administrar grandes patrimônios se faz cada vez mais difícil. Executivos de hoje são como os príncipes da Idade Média aconselhados por Nicolau Maquiavel. Estão cada vez mais visados, cada vez com mais campos de trabalho e a cada dia se abrem novas áreas pra se administrar.
  Analisando com um olhar administrativo, concluiu-se que Maquiavel olhava a política de com um olhar de administrador. Isso na Idade Média, onde sequer havia uma teoria para o conceito de administrar. Com um incrível poder de observação Nicolau formulou uma maneira atemporal de administrar tanto impérios como indústrias, empresas, lojas e até lares.
  Para tudo se tem um jeito de administrar. Enquanto usamos o termo “maquiavélico” para uma ação ou um plano maléfico, analisando a fundo podemos mudar essa ideia. “Maquiavélico” pode ser usado no meio administrativo como um conceito da boa arte de administrar.
  Confrontando os conselhos de Nicolau aos seus lideres compreendemos melhor como suas ideias eram atemporais.
As cinco funções do administrador x Conselhos maquiavélicos.
  Um administrador eficiente e eficaz que atinge a excelência tem cinco funções: planejar, organizar, dirigir, gerar e controlar.
Planejar.
  Sem planejamento não há concretização. Só se mantém no poder quem sabe planejar seu ataque. Do contrário conquistará poder mas não saberá se manter nele por muito tempo visto que não sabe o próximo passo.
Procederá, assim agindo, como um prudente arqueiro, que, sabedor da distância que a qualidade de seu arco permite-lhe atingir, e, reconhecendo como demasiado longínquo o alvo escolhido, fixa a pontaria num ponto muito mais alto que o estipulado, esperando, não que a sua flecha alcance uma tamanha altura, mas poder, ajudado pela mira mais alta, atingir o ponto visado.
(O Príncipe, pag. 24)
Organizar.
  Como se encontrar em meio um lugar sem começo nem fim? Não há quem possa exercer qualquer comando executivo em um lugar sem organização. Administrativamente temos como conceito de organização o agrupamento de tarefas
em equipes ou departamentos e alocação dos recursos necessários nas equipes e nos departamentos. A organização, portanto, é o processo de engajar as pessoas em um trabalho conjunto de uma maneira estruturada para alcançar objetivos comuns.
Não é algo de pouca importância para um príncipe [executivo] a escolha de seus ministros... O primeiro juízo que, por conjectura, formamos das faculdades intelectuais de um soberano ampara-se no conceito que fazemos dos homens que ele tem em torno de si.
(O Príncipe, pag., 112)
Dirigir.
  O objetivo que falamos no processo de organização é o foco do processo de direção. Encaminhar a organização empresarial para um foco é uma qualidade nata de um líder. Maquiavel, agia, com seus conselhos, exatamente nesta área. Fazia a concepção de todo o processo, mas, como um pensador da arte de liderar, olhava sempre pra onde queria chegar.
  Direção é o centro de todo um processo que quer culminar na excelência de uma caminhada até as conquistas. Requer a união da eficácia com a eficiência. Requer excelência para atingir objetivos.
Gerar.
  Das funções esta é a que menos cabe ao administrador. Neste ponto de ação a geração de recursos só vai se concretizar se todos os passos anteriores forem bem colocados. Neste ponto vemos uma parte das qualidades do administrador, é aqui que veremos se foram bem plantadas as sementes nos processos anteriores.
  Nicolau baseasse em experiências de grandes homens para dar seus conselhos muito bem observados. Os reinados da época não exigiam de um príncipe um dom de gerar recursos como exige hoje de um administrador. Mas exigia que seus governantes gerassem outras coisas que não recursos monetários que eram extorquidos da população com os impostos, exigiam a geração da segurança para o povo e da paz através da diplomacia.
Controlar.
  Ai está uma qualidade rara nos executivos contemporâneos, mas um adjetivo nato para os príncipes.em comparação, executivos controlam através de seu modo de liderança. Os príncipes controlavam através de seus exércitos. Muitos souberam ser mais inteligentes e controlar com seu carisma ou bondade.
  Controle é a função administrativa relacionada com a monitoração das atividades a fim de manter a organização no caminho adequado.
Maquiavel e a liderança.
  Não há conselhos “maquiavélicos” que possam dar certo sem o espírito de liderança. Príncipe ou CEO precisam saber fazer com que todos confiem neles e trilhem o caminho que foi indicado.
  Maquiavel demonstra em toda sua obra um amplo mapa de caminhos a serem tomados, estratégias para ganhar poder nas entrelinhas do bem ou do mal. Mas nada seria possível sem ter no Nobre a saliência nata de liderança.
Conclusão.
  A partir desta análise é possível afirmar que os trâmites administrativos, devido aos seus inúmeros pontos de vista torna qualquer empresário ou estudante d administração cada vez mais atraído. É quase que uma certeza de que esta experiência de aprofundamento num tema ora polêmico, ora instigante, fará cada vez mais buscar o conhecimento e o aprofundamento de outros diversos assuntos referentes a esta obra tão magnífica de intelecto indiscutível.
  É gratificante poder passar um período conversando com uma das mentes mais curiosas e inteligentes já conhecidas. Os pensamentos de Nicolau Maquiavel não devem ser vistos como meros conselhos políticos, devem estar presente na vida cotidiana como uma seta para indicar que observando os acertos e erros do passado podemos conquistar reinos e sonhos, e ter na vida uma lição sempre presente de que as conquistas começam pelo espírito a partir do momento que se quer conquistar. O resto é observação e persistência.
  Ainda é possível afirmar que esta obra não será encerrada aqui. É apenas uma exposição de uma margem de estudos amplamente rica.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Humores de Roma


Maquiavel tomou como modelo a República Romana, aquela que no passado foi capaz de atingir a forma mais perfeita de organização política, para compreender a vida política de sua própria cidade e época

Um dos livros mais importantes de Nicolau Maquiavel (1469-1527) – e bem menos conhecido do que O príncipe – é intitulado Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. O livro apresenta um longo comentário sobre a história romana, tal qual escrita não somente pelo historiador Tito Lívio, mas também por muitos outros que na época de Maquiavel (e até hoje) eram considerados ‘clássicos’, como Salústio e Tácito. Este fato, por si só, indica a importância dos romanos para o pensador florentino.
Lendo sua história, ele encontrava a ocasião para formular suas próprias reflexões políticas, que sempre tinham em vista esclarecer os fatos políticos de seu tempo. Maquiavel não estava preocupado em contar novamente a história de Roma. Seu objetivo era servir-se de Roma como uma espécie de modelo com o qual seria possível avaliar a qualidade da vida política de sua cidade natal, Florença.
Mas por que Roma? Como ela poderia servir de modelo? O que devemos entender por ‘qualidade da vida política’? Para responder a essas questões, é preciso lembrar, em primeiro lugar, que a Roma que interessava a Maquiavel (e a muitos outros pensadores do Renascimento italiano) era aquela do período republicano.
A longa história política romana é dividida em três períodos: no primeiro, a cidade era governada por reis, época que termina por volta do ano 495 a. C. O segundo período, que se estende até meados do século 1 a. C., é o republicano. O terceiro período é marcado pelo governo dos césares, o período da Roma imperial, que perdura até o fim do Império Romano do Ocidente, tradicionalmente datado em 476 d. C.
Roma republicana
Como muitos pensadores do Renascimento italiano, Maquiavel interessava-se pela cidade de Roma no período republicano – aqui representada por Friedrich Polack. Sua intenção não era contar a história da cidade, mas utilizá-la como modelo para avaliar a qualidade da vida política de sua cidade natal, Florença. (fonte: 'Geschichtsbilder', 1896)
A República Romana se diferenciava dos outros períodos na medida em que nela o exercício do poder político era entendido como um afazer coletivo, que concernia a todos os cidadãos, mais ou menos diretamente. A palavra ‘república’ conserva ainda a marca dessa forma de organização política em que o poder era partilhado: ela deriva de ‘res publica’, ou seja, ‘coisa pública’. Embora, na realidade, apenas alguns cidadãos ocupassem os mais altos cargos políticos, o poder era compreendido como coisa pública, jamais podendo se identificar com um homem ou um cidadão em particular.
Por esse motivo, essa ‘comunidade política’ somente podia se manter se todos os cidadãos se considerassem abaixo da lei, quer dizer, a ideia de república não se separa da ideia de igualdade cívica, de liberdade (no sentido de estar protegido da vontade arbitrária de outro cidadão) e de governo das leis.
Esse conjunto de ideias políticas começou a se desintegrar a partir do momento em que os romanos não foram mais capazes de impedir o dilaceramento de sua comunidade política, destruída pelas guerras civis e pelos conflitos de interesses entre os diferentes segmentos de sua classe dirigente. Roma perdeu o sentimento de sua integridade política, que somente pôde ser recuperada com o aparecimento de uma figura que unisse novamente a cidade, mas ao preço de quebrar o fundamental princípio da igualdade. Este homem foi Caio Júlio César.
Estátua de Júlio César
Estátua de Júlio César, em Roma. O imperador foi responsável por recuperar a organização política da cidade, desintegrada pelas guerras civis e conflitos de interesses entre os segmentos de sua classe dirigente ainda no período republicano. Mas com a recuperação veio a concentração do poder nas mãos de um único homem, superior aos demais e às próprias leis. (foto: Fickr/ mmarftrejo – CC BY-NC-SA 2.0)
Roma inicia assim sua história imperial. Do ponto de vista da organização política, ela será marcada pela concentração do poder nas mãos de um único homem, superior aos demais e às próprias leis. Seu título era o de princeps (o ‘principal’, o ‘príncipe’). Podemos agora compreender os motivos que levaram Maquiavel a ‘estudar’ a história da República Romana.
   

Boas leis

A Roma republicana chama a atenção de Maquiavel porque a cidade em que ele vivia e atuava politicamente (por 14 anos, exerceu relevante ofício político) também podia reivindicar para si o título de república. A República Florentina da época de Maquiavel (sobretudo entre 1494 e 1512) adotava princípios políticos muito próximos daqueles que encontramos em Roma, apesar das grandes diferenças que separavam as duas cidades: liberdade, igualdade e governo das leis.
A República Florentina da época de Maquiavel adotava princípios políticos muito próximos daqueles que encontramos em Roma: liberdade, igualdade e governo das leis
Se a essa afinidade acrescentarmos o alto valor que Maquiavel e quase todos os renascentistas conferiam à cultura e à história romanas, podemos entender a força do exemplo de Roma. A cidade aparecia como a República ideal, aquela que nos tempos passados foi capaz de atingir a forma mais perfeita de organização política. Esse sucesso seria atestado pelo fato de ter alcançado um domínio territorial e político até então desconhecido.
Mas como entender a superioridade política romana? Esta é a pergunta mais importante para Maquiavel e respondê-la é um de seus principais objetivos. Segundo ele, Roma alcançou grande sucesso político e militar porque foi capaz de fazer o que nenhuma cidade ou república antes dela havia feito: Roma soube canalizar a ‘energia política’ de seus cidadãos em benefício da cidade. Essa energia política Maquiavel chamava de ‘humores’.
De acordo com sua teoria política, toda cidade era dividida entre dois humores: o dos ‘grandes’ (que é basicamente o desejo de dominar) e o do ‘povo’ (que é o desejo de não ser dominado). A diferença entre esses humores causa conflito em toda e qualquer cidade. A resolução desse conflito é o que vai definir a qualidade da vida política da república. 
Se o conflito dá origem a boas leis (como em Roma), a cidade poderá atingir a melhor forma de organização política
Se o conflito dá origem a boas leis (como em Roma), a cidade poderá atingir a melhor forma de organização política. Nela os cidadãos conhecerão a liberdade na medida em que satisfizerem seus desejos por via pública, por meio de instituições políticas nas quais todos eles (grandes e povo) terão o respaldo da lei para agir, mas também verão sua ação limitada pela lei. Se o conflito resulta na imposição de uma classe sobre outras (como muitas vezes aconteceu em Florença), então os cidadãos buscarão satisfazer seus interesses por meios privados, cada um desejando apropriar-se do poder para seu benefício particular.
O grande valor da história política romana, para Maquiavel, se devia a sua grande capacidade de dirigir para fins propriamente políticos (visando o bem comum) as discórdias presentes em qualquer associação humana. Ser capaz de tirar benefícios desse exemplo é o que irá decidir, segundo ele, o destino político dos florentinos e de toda e qualquer república.

Helton Adverse
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Minas Gerais

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Seminário na Unesp discute 500 anos de “O Príncipe”, obra de Maquiavel


Evento acontece de 6 a 8 de maio e tem coordenação do professor Rafael Salatini, do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas (DCPE) da Unesp
A Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da Unesp, Câmpus de Marília, organizará um seminário sobre Nicolau Maquiavel, em comemoração aos 500 anos de sua mais importante obra, "O Príncipe". O evento acontece de 6 a 8 de maio e tem coordenação geral do professor Rafael Salatini, do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas (DCPE) da Unesp.
A palestra de abertura do seminário, "Notas sobre as relações entre os fins e os meios em Maquiavel", será coordenada por Patrícia Fontoura Aranovich, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). O encerramento será realizado com a palestra "Maquiavel antes do Príncipe: Os escritos diplomáticos do Secretário Florentino", de Newton Bignotto, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Para fazer a inscrição e conhecer a programação completa, acesse o site da Unesp, Câmpus Marília.

SERVIÇO
Seminário Maquiavel - 500 Anos de O príncipe (1513-2013)
De 6 a 8 de maio
Faculdade de Filosofia e Ciências (Av. Hygino Muzzi Filho, 737, Marília - SP)
Inscrições: R$ 18,00
Fonte: Saopaulo.sp


segunda-feira, 15 de abril de 2013

SUCESSÕES E ADMINISTRAÇÕES



Ruy Nogueira Barbosa
Ante a renúncia do Papa BENTO XVI, mediante conclave, houvera a eleição de novo pontífice, a saber: Papa Francisco.
De acordo com as informações veiculadas pela mídia, a renúncia do Papa BENTO XVI se dera em decorrência de uma guerra política nos bastidores do Vaticano, uma disputa que envolve uma rede de intrigas, do escândalo do vazamento de documentos secretos denunciando corrupção nos negócios do Vaticano, além dos casos de pedofilia, que envolveram padres do mundo todo, ou seja, crise interna eminentemente político-administrativa.
O jornal do Vaticano, fazendo seu papel, garante que o Papa não estaria fugindo das suas responsabilidades, nem das intrigas. Mas acredita que só com o tempo os fiéis e a igreja vão entender a importância de sua herança e a nobreza do seu gesto.
Este pequeno introito, assim fora feito para traçarmos um paralelo com a administração municipal de Poxoréu-MT, instalada em decorrência de regular processo eleitoral.
Aqui, a população elegera a prefeita Sra. JANE SANCHES LOPES, determinada e individualizada pessoa, na condição de primeira gestora e ordenadora maior das despesas, entretanto, do que se tem visto até o momento, esta não se encontra de fato exercendo a administração do município, posto que o Sr. LINDBERG NUNES ROCHA, funcionário do gabinete da vice-governadoria estadual, usurpa essa função, comparecendo diariamente no paço municipal dando e ditando ordens.
Tem-se ainda como mais que curioso e estarrecedor fato, que a Câmara Municipal, até o presente momento, não vê esta esdrúxula situação, entretanto, se a vê, faz vistas grossas, como se tal quadro fosse “normal” e nada de estranho estivesse ocorrendo. Nesse particular, o que mais me espanta, é que uma diminuta parte da população, gente esclarecida, culta, formadora de opinião defende esta imoralidade, com o seguinte discurso:
“Poxoréu está de parabéns, em razão de que a prefeita Jane - sabiamente - tem com ela trabalhando ombro-a-ombro o ex-prefeito (por diversas gestões) Dr. Lindberg, o qual, por ser seu marido, em nada macula a gestão de Jane. Ao contrário, é contribuição de alto valor e que só tem a elevar mais e mais o nível da atual administração. Isto é alvo de críticas?! Claro!!! Mas, que em nada contribui. É bom e digno de aprovação.Prof. Luiz Carlos Ferreira”(SIC)(grifo meu)
Professor Luiz Carlos!!!!!!, como é de seu conhecimento, posto que culto, filologicamente, a distância é abissal entre “CONTRIBUIR” (cooperar para, ajudar, colaborar, auxiliar, coadjuvar, cooperar) e “ADMINISTRAR” (conduzir, governar, controlar, aplicar, comandar, dirigir, gerenciar, gerir, governar, ministrar, reger).
A situação atual vivenciada na administração deste município, é inadmissível e inaceitável, é a materialização do ESTELIONATO ELEITORAL, é tão absurdo quanto se eleger a “DILMA” - Presidente, porém se ter “Sr. JOSÉ DIRCEU” – como Administrador, isto é mais que “gato por lebre”. Ademais, destaca-se: estes meios jamais serão justificativas para os fins desejados.
Demasiado não é relembrar que nesta mesma unidade administrativa do Estado, a história se repete, basta que se faça um pequeno esforço, e revejamos a Administração do Sr. LUCAS RIBEIRO VILELA (31/01/73 à 31/02/76), onde o administrador de fato jamais fora o eleito, posto que quem administrava era o Sr. LINDBERG NUNES ROCHA, leia-se, fato digno de perpetuação, quer seja pelos contadores de “causos” e ou aqueles relatados em documentos de conhecimento e domínio público, que fazem os necessários registros históricos.
Outrora lecionara Maquiavel que “a primeira impressão que se tem de um governante e da sua inteligência é dada pelos homens que o cercam”, e a situação neste momento vivenciada, não trás em si elementos dignos de confiabilidade e ou admiração, mas sim da materialização do estelionato eleitoral por mim noutra contribuição noticiada (O Poxoréu que eu quero, 03/2012).
Pela ordem, a propósito, ainda que preclusa e superada a questão de estelionato eleitoral, não se pode esquecer que o exercício da administração municipal por particular, portanto, incompetente para o exercício da função pública, caracteriza conduta tipificada no artigo 328 do Código Penal Brasileiro, no Capítulo “Dos Crimes Praticados por Particular Contra a Administração em Geral”, eis que configura “usurpação da função pública”. Se nomeado para tal função, inafastável a incidência da legislação que trata do nepotismo ou da ficha limpa.  Nesses casos,  merece a  imediata intervenção do Ministério Público para afastar do cenário a ilicitude.
A falta de comprometimento, ou melhor, o grande interesse pela coisa pública demonstrada por aqueles que concorreram ao cargo maior, parece que fora “momentâneo”, posto que diante dessa improbidade administrativa permanecem sepulcralmente silentes, e, em assim sendo, vejo que a maior tristeza daqueles que não venceram, não deve ser a derrota, mas é a vergonha de não se colocarem em permanente estado de luta.
Como se vê, do quadro instalado aqui nestas terras tropicais, diametralmente oposto é daquele vivido no vaticano, pois aqui, não houvera renuncia formal, expressa, escrita, mas tácita, informal, posto que a eleita não governa, se limita às aparências, no faz de conta, “reina mas não governa”, repisa-se, fato já vivenciado na revolução inglesa, e também aqui na ex-Capital dos Diamantes (31/01/73 à 31/02/76 - Prefeito Lucas Ribeiro Vilela e como Vice o Sr. Bráulio Silva). Lá em terras romanas, ao contrário, se não governa, renuncia, deixa o poder para quem pode governar.
E àqueles que confiaram em discursos construídos sobre um passado e na pífia e esquálida administração que sucedera, estão destinados a perder o futuro, haja vista que não há nada mais difícil ou perigoso do que tomar a frente na introdução de uma mudança sem preparo e quadros, destacando que mudança não assegura necessariamente progresso, mas o progresso implacavelmente requer mudança.
Ruy Nogueira Barbosa

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O ‘Príncipe’ 500 anos depois e Maquiavel ainda hoje



Foi no final do Outono de 1513, portanto há 500 anos, que um homem de nome Nicolau Maquiavel, confinado, por razões políticas, ao espaço limitado da sua quinta em Sant'Andrea, publicou um pequeno livro intitulado ‘O Príncipe’, que viria a transformar-se num clássico absoluto da filosofia política.

Diz-se que uma das preocupações de Maquiavel era fazer chegar um exemplar autografado do livro a Erasmo de Roterdão, que se encontrava doente e mesmo no final da vida. Tanto quanto se sabe, o livro não che-gou a tempo às mãos do grande humanista que sonhava com uma Europa unida, sem guerra e sem querelas religiosas que a poderiam levar a um irreversível colapso.

Maquiavel representava o pensamento pragmático e instrumental de quem usa com destreza e engenho os instrumentos que perpetuam o exercício do poder. Erasmo tinha uma visão mais utópica, embora, conhecendo como conhecia a Antiguidade greco-latina, soubesse que o pensamento de um homem como Maquiavel, que desconhecia como teórico e quadro político, já muitas vezes fora antes posto em prática, embora de forma não sistematizada em tratado de ciência política.

O que verdadeiramente contava e conta no pensamento de Maquiavel é o êxito dos resultados na hora de se avaliar o cumprimento dos objectivos, ainda que isso leve os fins a legitimarem todos os meios. Erasmo pensava de modo diferente.

Ao longo dos séculos que entretanto passaram, o autor deste texto de cerca de 30 mil palavras, também autor de uma peça de teatro intitulada ‘A Mandrágora’ e de outros livros, foi visto como uma personificação do mal e deu mesmo origem a um adjectivo que muito penaliza quem com ele é presenteado. Defendia Maquiavel que, em política, é preferível ser temido a ser amado, e essa passou a ser a perspectiva dos detentores do poder absoluto, dos autocratas e dos ditadores, de Salazar e Franco a Adolf Hitler. Também Napoleão Bonaparte foi grande admirador de Maquiavel, tendo mesmo publicado uma edição anotada de ‘O Príncipe’.

Altos dignitários da Igreja chegaram a escrever que o livro de Nicolau Maquiavel fora escrito pela mão de Satanás. E porquê? Porque o conceito de moralidade está ausente do pensamento do teórico florentino, para quem era claro que um homem esquece mais depressa a morte do pai do que a perda do património. Nesse sentido, ‘O Príncipe’ é um tratado sobre o cinismo e o pragmatismo da política.

É interessante constatar que esta efeméride passou praticamente despercebida, designadamente na Itália onde Maquiavel nasceu e onde a vida política se transformou num imenso circo onde pontificam palhaços, comediantes de feira e outras figuras que tornam aberrante o jogo democrático, sobretudo se o deixam refém de populismos, demagogias e absolutas faltas de respeito pelo interesse colectivo.

Por outro lado, poderá dizer-se que a Europa da União, no difícil equilíbrio entre países ricos e pobres, poderosos e fracos, representa cada vez a concretização prática do pensamento de Maquiavel e não de Erasmo, porque permite que, sem escrúpulos ou reservas morais, se condenem à marginalização e ao empobrecimento aqueles que não cabem nos conceitos de solidariedade e entreajuda que cada vez menos valor e significado têm entre Estados que cobiçam e condicionam a soberania dos outros.

Se Maquiavel ainda fizesse parte do número dos vivos não teria dificuldade em ser festejado, celebrado e contratado como consultor e assessor, embora tudo me leve a crer que nunca chegaria tão longe como os aberrantes teóricos do ultraliberalismo. Ele tinha outra dimensão e grandeza.

Entretanto, proliferam os políticos transformados em comentadores televisivos que ainda não perceberam que, em regra, Maquiavel nunca consegue tornar-se Príncipe, mesmo que todas as semanas entre nas nossas casas, anos a fio.

A verdade é que Nicolau Maquiavel escreveu noutra época e com base noutros conceitos, regras e visões do poder. Mas o que continua a ter de mais actual e interessante é a forma como sintetizou aquilo que mais profundamente caracteriza a natureza humana quando é poder, a sua conquista e manutenção que estão em causa.