terça-feira, 1 de dezembro de 2009

DA ARTE DE PERDER ELEIÇÃO

Enquanto o presidente Lula infla a candidatura de sua eclética ministra, que passou a supervisionar e entender de todos os projetos do governo federal, o governador de São Paulo, ainda detentor da maior intenção de votos para a Presidência da República, fica na moita e vai tomando decisões que, além de altamente discutíveis, favorecem demais a candidatura oficial.

O presidente vem-se mostrando aluno aplicado de Maquiavel, investindo em ações que implicam pontos favoráveis à sua candidata. Tirante a famosa Bolsa-Família, agora fatura alto com o pré-sal do futuro e reduziu o IPI de certos setores da economia, sempre objetivando as eleições de 2010. E ressalte-se que parcela significativa do IPI é repassada a Estados e Distrito Federal, sem que seus governadores e prefeitos faturem politicamente com tal redução. Foi assim com os veículos, os móveis, os eletrodomésticos, o material de construção, e já prepara para o início do ano a redução do IPI do material escolar. Ao mesmo tempo, José Serra tornou-se um dos paladinos da PEC do Calote, devidamente apoiado por seu pupilo, o prefeito da capital, avacalhando de vez os pagamentos das dívidas públicas com os cidadãos espoliados anos a fio.

A dupla também resolveu ampliar as pistas da Marginal do Tietê, contrariando a tendência mundial de devolver as várzeas aos rios, com o intuito de melhorar as condições de vida das cidades. É uma obra que merecia maior discussão com a população, pois, se trará alívio temporário ao trânsito, importará em prejuízos permanentes à bacia do rio. E some-se ainda que sua construção em plena época natalina infernizará a vida dos paulistanos. Mas como pisar pouco na bola é bobagem, o prefeito procura aumentar astronomicamente o IPTU - em homenagem ao ano eleitoral, imagino. Se a Planta Genérica de Valores estava defasada, a pergunta que ocorre de imediato é: por que não foi reajustada neste ano e no ano passado? E essa valorização é discutível. Minha casa, por exemplo, tem valor de mercado maior, mas em razão do acréscimo do comércio e dos espigões na região, pois nossa qualidade de vida piorou, e muito.

E o prefeito ainda foi à TV defender o aumento, dizendo de modo tranquilo que a Prefeitura não tem nenhuma dívida. E os precatórios? Já estão por conta do calote? Também alega, para variar, que precisa aumentar a arrecadação objetivando aplicar em saúde e educação, chamando a atenção para a qualidade da merenda. Que qualidade, a que até há pouco tempo distribuía uma salsicha para três alunos? São atitudes que só ajudam a candidatura da ministra e a oposição tem o dever de batalhar para que ela não tenha sucesso. Não tenho restrições à pessoa da ministra, mas sempre que a situação conseguiu eleger um poste, como se diz na gíria, nós nos demos mal. Foi assim com o ex-presidente Collor e com o ex-prefeito Pitta, para citar os casos mais evidentes.

Gilberto Pacini, São Paulo

Fonte:Jamirlima.blogspot.com

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

“MAQUIAVÉLICO” VERSUS “MAQUIAVELIANO” NA LÍNGUA E NOS DICIONÁRIOS MONOLÍNGÜES BRASILEIROS

Resumo:
Se bem que se estejam multiplicando no Brasil as releituras da obra de Maquiavel isentas de antigos preconceitos, e a palavra “maquiaveliano” se encontre, há umas décadas, atestada com um específico significado denotativo – análogo àquele com que, em geral, encontra-se “machia-velliano” na língua e nos dicionários de italiano –, contudo, é somente como mero sinônimo de “maquiavélico” que a palavra, há pouco, começou a aparecer registrada por uns dicionários monolíngües brasileiros. Pelo contrário, o multiplicar-se das atestações do adjetivo “maquiaveliano”, usado na acepção denotativa também como antídoto semântico-cultural, impõe uma redefinição de toda a família de palavras derivada do nome próprio ‘Maquiavel’ por parte dos dicionários monolíngües. Ou seja, por parte das obras que, por definição, deveriam representar, na sua inteireza e especificidade, o atual perfil da língua e da cultura do Brasil.

De Sandra Bagno Universidade de Pádua – Itália


Texto completo clique aqui

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Resenha - Maquiavel de Quentin Skinner

A publicação do estudo de Quentin Skinner, Maquiavel, vem enriquecer o acervo de obras em português sobre o pensamento político clássico. Trata-sede livro admirável e original, valorizado sobremaneira com o cuidadoso trabalho de tradução elaborado pela Prof â M. Lucia Montes. Após quase 500 anos da primeira edição de O Príncipe ─ obra magistral do mestre florentino ─ permanece viva a idéia de ser infindável a possibilidade de desvendar os meandros de sua construção analítica. Muitos arriscaram apreender o recado do escritor renascentista. Nesta instigante empreitada, que se inicia no próprio século XVI, Maquiavel foi alvo das mais diferentes e díspares interpretações. Sofreu ataques, sua obra foi acusada de inspirar atos ignominiosos, e do índex papal passou à história travestido com um dos mais temíveis adjetivos ─ maquiavélico. Tal reputação atravessou as fronteiras da Itália, ocupou o continente europeu e daí expandiu-se, desconhecendo limites geográficos e lingüísticos. A pecha do maquiavelismo sobreviveu às disputas entre jesuítas e protestantes e alojou-se no embate político, sempre como uma forma torpe e eficaz de caracterizar moralmente o adversário. E mais ainda: os termos maquiavélico e maquiavelismo não se restringiram sequer ao universo da política ─ habitaram, sem cerimônia, o mundo das relações privadas.

Não se pense, contudo, que Maquiavel com seus escritos esteve somente sujeito às interpretações que justificam a malignidade. Nem mesmo que a secularização dos últimos tempos libertaram-no do opróbrio moralista. Ao lado das mais ferozes condenações, muitos procuraram com igual paixão regenerar sua imagem, apontando os objetivos democráticos do primeiro grande analista político da modernidade. Rousseau encabeça uma longa lista, cerrando fileiras contra aqueles que vêem em Maquiavel o inspirador da tirania, o mestre do mal.

Face a tantas e tão contraditórias interpretações que se desdobram sem cessar nestes quatro séculos, um fato se impõe: há algo muito forte em Maquiavel, capaz de gerar amor e ódio, e de provocar nos estudiosos das idéias a necessidade de decifrar o enigma proposto. Quentin Skinner se lança nesta aventura e para isso coloca-se no efício de historiador, cujo trabalho, afirma, "consiste seguramente em servir como um anjo que registra, não como um juiz que condena" (p. 134). Seu registro baseia-se num contraponto entre a vida e a obra de Maquiavel. Assim, busca demonstrar a influência da carreira diplomática e do posterior exílio forçado nos escritos do autor renascentista.

A experiência na chancelaria propiciaria a Maquiavel observar ativamente a arte de conduzir os negócios do Estado. Skinner sustenta que de sua prática como funcionário público, Maquiavel intuiu os princípios da arte de governar que exporia mais tarde nas suas obras históricas e políticas. Desta forma, suas missões junto ao rei Luís XII da França, a César Bórgia, ao papa Júlio II, ao imperador Maximiliano, indicaram-lhe os motivos da instabilidade dos governos. Em poucas palavras, a "debilidade básica que todos compartilhavam consistia em uma fatídica inflexibilidade diante da mudança das circunstâncias" (p. 31).

O confronto entre as circunstâncias e o modo de agir dos governantes ─ ou entre a Fortuna e a Virtu ─ compõe o cerne da análise maquiaveliana. Nesta análise, há uma clara rejeição da moralidade humanista convencional, quer a partir de uma crítica impenitente aos princípios consagrados pela tradição, quer a partir de um silêncio eloqüente. De uma forma ou de outra, Maquiavel provoca um verdadeiro cataclisma. O homem é visto como um sujeito da história, capaz, se virtuoso, de resistir aos golpes da Fortuna

A Virtu é a disposição de fazer tudo aquilo que for ditado pela necessidade ─ independente do fato de ser a ação eventualmente iníqua ou virtuosa ─ para alcançar os mais altos objetivos. Ora, denotando a Virtu a qualidade de flexibilidade moral, cai por terra a rígida oposição cristã entre os vícios e a virtude. Há vícios virtuosos, e há virtudes que trazem a ruína.

Skinner demonstra ainda uma profunda ligação entre as teses desenvolvidas por Maquiavel no Príncipe e nos Discursos, divergindo, sem contudo atacar explicitamente, dos intérpretes que julgam existir, se não duas formulações muito distintas ou mesmo contraditórias, pelo menos dois textos independentes. Skinner, ao contrário, julga que nos Discursos o mestre florentino retoma o Príncipe, aprofundando suas proposições. Trata-se, uma vez mais, do desenvolvimento dos argumentos que sustentarei a indispensabilidade da Virtu para resistir aos infortúnios da sorte.

Aqui, torna-se clara a defesa da liberdade e sua identificação com a grandeza de uma cidade. Roma antiga atingiu a glória porque a Virtu esteve disseminada entre governantes e governados, e porque suas leis garantiram que a corrupção não tivesse efeitos devastadores.

O estudo de Roma ─ tema central dos Discursos ─ onde a liberdade foi preservada por mais de 400 anos, não se esgota em si mesmo. Skinner sustenta que "existe uma contínua preocupação com o destino de Florença por trás da argumentação geral" (p. 110). Maquiavel compara com angústia a total corrupção de sua cidade natal e a Virtu exemplar do mundo antigo. Sua Itália entregara-se à escravidão, a corrupção com sua influência maligna sufocou as liberdades, levando à tirania e à desgraça. Maquiavel, o amante da liberdade, o analista de situações, acreditava firmemente que este quadro poderia ser alterado. Afinal, a fortuna só manifesta sua força quando não encontra homens de coragem, cidadãos de Virtu.

Maquiavel, de Skinner, é uma importante contribuição para a leitura, dos escritos do autor renascentista. Mas, talvez, sua mais irresistível qualidade esteja no, fato de sugerir que Maquiavel continua aí para ser decifrado. Trata-se de um desafio que se renova a cada leitura.



Fonte
:Maquiavel de Quentin Skinner São Paulo: Editora Brasiliense, 1988 por Maria Tereza Sadek

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Maquiavel um visionário ou um gênio?


O paradoxo de Maquiavel é a gente não conseguir definir a causa da sua imortalidade literária: Um visionário? um gênio? um filósofo dos vícios da política da sua época? Ou, simplesmente, o autor de "O Principe", retratou algo tão óbvio do carater humano, que ao criticar e sensurar Maquiavel, na verdade estamos sensurando-o por desnudar uma verdade que não se queria cojitar: "os meios justificam o fim".A criança pede ou chora, ou esperneia até obter o brinquedo. O homem ora na sinagoga, grita eloquente em praça pública... ou mata, para conseguir seu intento. Mas para não chegar a esse extremo, usa do maquiavelismo "básico" politicamente correto e imoral, isso tudo independente da época. - Maquiavel! teu pecado foi contar a verdade nua e crua.

Fonte:digestivocultural

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

De Sócrates a Maquiavel

Não; o primeiro-ministro de Portugal não é um cidadão comum. Faz todo o sentido que tenha - no exercício do seu cargo - certos privilégios que os cidadãos comuns não têm. Por isso, ele deve também obrigar-se a certas reservas que os cidadãos comuns não precisam de respeitar. E apenas parte disto está escrito na lei.

José Sócrates foi avisado. Por exemplo, quando processou jornalistas por textos que ele considerava caluniosos. Na altura, a reacção de José Sócrates (persuasiva para alguns dos seus apoiantes) foi: terei eu menos direitos do que o cidadão comum? Não poderei eu processar um cronista que me insulta? Onde está a lei que me veda esse direito?

Em lado nenhum, escrevi eu na altura. É o primeiro-ministro que deve vedar-se a si mesmo esse direito. Desde logo, porque o cronista não o pode processar a ele e porque, mesmo se o pudesse fazer, a assimetria de poder seria sempre gritante. O primeiro-ministro deve ser parcimonioso no uso do seu poder retaliatório contra um cidadão qualquer.

José Sócrates pergunta agora: como é possível que eu tenha sido escutado? Não devem os titulares dos órgãos de soberania estar protegidos por disposições especiais? Não estará isto a ir longe de mais?

A primeira resposta é: aha! O primeiro-ministro não pode querer ser uma pessoa normal (para processar jornalistas) e uma pessoa especial (para ter regras privilegiadas em escutas) ao mesmo tempo. Isso não está na lei, mas está na moral da República; ao contrário das antigas monarquias, a República não dá privilégios gratuitos; com esses privilégios tem de vir uma reserva especial de comportamento, quer ela esteja descrita na lei ou não.

Mas a segunda resposta é: as escutas ao primeiro-ministro devem, sim, ter regras especiais. Ele, enquanto decisor, tem informação privilegiada que deve ser protegida.

As escutas que têm inquietado o país, porém, não são escutas a José Sócrates; são escutas com José Sócrates - escutas nas quais ele aparece. E é fútil argumentar que se as escutas forem inválidas nós devemos fingir que elas não existem. A mente pública não funciona com essa rigidez processualista. Ao não ter tido a reserva que deveria no momento próprio, José Sócrates passou a imagem de alguém obcecado com a imprensa. E agora estas notícias parecem fazer sentido, muito azar para ele e para todos nós. É grave imaginar que Sócrates tenha conversado sobre um grupo de imprensa com um amigo banqueiro, que tinha nas mãos a torneira do dinheiro que poderia salvar ou não salvar esse grupo de imprensa. É inquietante imaginar que ele soubesse da tentativa de compra de outro grupo de imprensa em Março, quando muitos de nós (eu incluído) o tomámos ao pé da letra quando ele em Junho nos disse que não sabia. E é mais grave e inquietante ainda que sejam notícias baseadas em escutas que não conhecemos, e cuja credibilidade não podemos aferir.

Maquiavel, na Florença do Renascimento, explicou-nos como um governante pode mentir em caso de necessidade. Esqueceu-se de dizer que o povo também está preparado para, em caso de necessidade, fingir que não vê. E talvez seja isso que vai acontecer agora: o Governo acabou de tomar o posse, o país não quer lançar-se no caos. Mas Sócrates deve saber isto: ou ele desata este nó agora, prestando um esclarecimento formal ou, depois de passar o estado de necessidade, ninguém vai voltar a fingir mais nada por ele.

Fonte:Jornalpúblico

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Maquiavel e o Imperador de Roma

O que dis­se Ma­qui­a­vel so­bre o im­pe­ra­dor que ten­tou im­plan­tar um ajus­te fis­cal em Ro­ma e aca­bou mor­to pe­la es­pa­da dos pró­prios com­pa­nhei­ros

O ator ir­lan­dês Ri­chard Har­ris, co­mo Mar­co Au­ré­lio: ele sou­be agra­dar o po­vo sem re­vol­tar o exér­ci­to e teve destino diferente de Pertinax, que foi sangrado no palácio
Ni­co­lau Ma­qui­a­vel, fun­da­dor da ci­ên­cia po­lí­ti­ca, foi um gê­nio uni­ver­sal me­nos pe­los “in­sights” (mo­men­tos ilu­mi­na­dos) que te­ve do que pe­la per­sis­tên­cia com que se agar­rou a uma con­vic­ção que, ho­je, po­de ser en­ten­di­da co­mo ba­nal: ele acre­di­ta­va pi­a­men­te que a his­tó­ria de­ve ser­vir de li­ção e é (no ca­so de seu te­ma pre­di­le­to) fun­da­men­tal pa­ra a con­quis­ta e a ma­nu­ten­ção do po­der. Na vi­ra­da do ano 1500, Ma­qui­a­vel foi tam­bém um dos pri­mei­ros e me­lho­res exem­plos de ser­vi­dor pú­bli­co que as­cen­de na car­rei­ra pe­los pró­prios mé­ri­tos — sua fa­mí­lia era em­po­bre­ci­da e sua in­di­ca­ção, aos 29 anos, pa­ra um dos prin­ci­pa­is car­gos da chan­ce­la­ria de Flo­ren­ça foi fei­ta, pro­va­vel­men­te, por um de seus pro­fes­so­res na uni­ver­si­da­de pú­bli­ca da ci­da­de.


Uma con­jun­tu­ra po­lí­ti­ca com­ple­xa (as ci­da­des ita­li­a­nas de­su­ni­das e a Eu­ro­pa em con­vul­são) o fez ca­ir em des­gra­ça, 13 anos de­pois. Foi a par­tir des­se pe­rí­o­do que Ma­qui­a­vel es­cre­veu su­as prin­ci­pa­is obras, in­clu­si­ve “O Prín­ci­pe” — pro­du­zi­da qua­se ex­clu­si­va­men­te com o ob­je­ti­vo de re­to­mar seu an­ti­go em­pre­go (quem quer al­go mais ro­mân­ti­co pre­fe­re pen­sar que o li­vro ba­si­lar da ci­ên­cia po­lí­ti­ca mi­ra­va a uni­fi­ca­ção da Itá­lia). Ma­qui­a­vel era apai­xo­na­do pe­la an­ti­gui­da­de, es­pe­ci­al­men­te o Im­pé­rio Ro­ma­no. Su­as prin­ci­pa­is im­pres­sões so­bre su­ces­so e fa­li­bi­li­da­de dos go­ver­nan­tes fo­ram re­ti­ra­das de exem­plos la­ti­nos mais im­pres­sio­nan­tes. O ca­pí­tu­lo 19, do “Prín­ci­pe”, é qua­se in­tei­ra­men­te de­di­ca­do à bi­o­gra­fia de dez im­pe­ra­do­res de um dos pe­rí­o­dos mais crí­ti­cos de Ro­ma.

Ma­qui­a­vel en­trou nes­sa lon­ga des­cri­ção his­tó­ri­ca pa­ra jus­ti­fi­car sua te­se de que o lí­der po­lí­ti­co de­ve evi­tar o ódio e o des­pre­zo das mas­sas — ter­re­no fér­til pa­ra cons­pi­ra­ções. Ele faz um re­la­to en­tu­si­as­ma­do so­bre Mar­co Au­ré­lio, um ca­so de dés­po­ta es­cla­re­ci­do, que fi­cou co­nhe­ci­do co­mo o im­pe­ra­dor fi­ló­so­fo. Hollywo­od fez um fil­me tec­ni­ca­men­te gran­di­o­so, “Gla­di­a­dor” (di­ri­gi­do por Rid­ley Scott), no qual a mor­te de Mar­co Au­ré­lio é o es­to­pim da tra­ma. A as­cen­são de Cô­mo­do, fi­lho na­tu­ral do im­pe­ra­dor, de fa­to, pro­vo­cou a ru­í­na da “pax ro­ma­na”. Até aí, o fil­me foi fi­el à his­tó­ria. O res­to é fic­ção. Pa­ra Ma­qui­a­vel, os su­ces­so­res de Mar­co Au­ré­lio fa­lha­ram, dan­do fim à Era de Ou­ro do im­pé­rio, por não con­se­gui­rem agra­dar, ao mes­mo tem­po, as du­as prin­ci­pa­is for­ças de Ro­ma: o po­vo e os sol­da­dos.

Um des­ses go­ver­nan­tes foi Per­ti­nax, su­ces­sor ime­di­a­to de Cô­mo­do e, cer­ta­men­te, um dos exem­plos mais in­te­res­san­tes (e fa­tais) so­bre a vo­la­ti­li­da­de do po­der e os ris­cos pa­ra quem de­sa­gra­da o pró­prio exér­ci­to. Per­ti­nax ti­nha ori­gem hu­mil­de e gran­de ta­len­to co­mo ad­mi­nis­tra­dor. Fez fa­ma em Ro­ma co­mo dis­ci­pli­na­dor de le­gi­ões em vá­ri­as cam­pa­nhas que li­de­rou. Quan­do Cô­mo­do foi as­sas­si­na­do, era pre­fei­to pre­to­ri­a­no (ad­mi­nis­tra­va a Guar­da Pre­to­ri­a­na, res­pon­sá­vel pe­la se­gu­ran­ça pes­so­al dos im­pe­ra­do­res). Os sol­da­dos ime­di­a­ta­men­te o aju­da­ram a as­su­mir o co­man­do do im­pé­rio, com a pro­mes­sa de que re­ce­be­ri­am um do­na­ti­vo ge­ne­ro­so — re­com­pen­sa por con­quis­ta mi­li­tar. Só que Per­ti­nax de­ci­diu ig­no­rar o acor­do tá­ci­to que ti­nha com seus ali­a­dos pre­to­ri­a­nos.

Pre­o­cu­pa­do com as con­tas de Ro­ma, em­pre­en­deu uma sé­rie de me­di­das res­tri­ti­vas — fa­zen­do aqui­lo que ho­je se cha­ma de ajus­te fis­cal, com o Es­ta­do gas­tan­do ape­nas o que ar­re­ca­da. Pre­ci­sou en­ro­lar os sol­da­dos o quan­to pô­de. Hou­ve uma pri­mei­ra re­vol­ta lo­go nos pri­mei­ros di­as. Con­tu­do, Per­ti­nax con­se­guiu con­tor­ná-la com a pro­mes­sa de que o do­na­ti­vo se­ria pa­go lo­go que con­se­guis­se ven­der as pro­pri­e­da­des de Cô­mo­do — in­clu­in­do es­cra­vos e con­cu­bi­nas. Os sol­da­dos fo­ram pa­ra ca­sa, mas não por mui­to tem­po, pois ape­nas me­ta­de do do­na­ti­vo foi pa­go. No 86° dia co­mo im­pe­ra­dor, Per­ti­nax foi tres­pas­sa­do pe­las es­pa­das dos guar­das pre­to­ri­a­nos (seus ali­a­dos) por­que não cum­priu a pro­mes­sa de di­vi­dir o po­der com eles. Na se­quên­cia, al­go bi­zar­ro, os amo­ti­na­dos fi­ze­ram um lei­lão do tro­no, ven­ci­do por Dí­dio Ju­li­a­no, que ofe­re­ceu o mai­or do­na­ti­vo aos sol­da­dos.

As li­ções de Ma­qui­a­vel con­ti­nuam atu­ais, pois su­as pro­po­si­ções se ba­sei­am em al­go pou­co mu­tá­vel: a na­tu­re­za do po­der. A ló­gi­ca pro­pos­ta por ele sem­pre cho­cou a éti­ca con­ven­cio­nal, mas sua aná­li­se dos di­le­mas po­lí­ti­cos (so­bre as de­ci­sões do po­der) é ir­re­fu­tá­vel. As in­ten­ções de Per­ti­nax, por exem­plo, fo­ram as me­lho­res. Além de con­tro­lar os gas­tos do im­pé­rio (co­lo­ca­dos em um ní­vel pe­ri­go­so por Cô­mo­do), ele ten­ta­va agra­dar o po­vo com a re­to­ma­da de al­guns di­rei­tos re­le­ga­dos pe­lo seu an­te­ces­sor — pre­o­cu­pa­ção con­si­de­ra­da ir­re­le­van­te pe­los sol­da­dos. Po­rém, co­mo aler­ta Ma­qui­a­vel, nem sem­pre é fa­zen­do o que pa­re­ce ser bom que se man­tém um tro­no. Na ver­da­de, o flo­ren­ti­no de­fen­dia uma es­pé­cie de equi­lí­brio nas de­ci­sões que re­quer um ti­po de ta­len­to mui­to es­pe­cí­fi­co.

A vir­tu­de do prín­ci­pe é fa­zer com que o “mal ne­ces­sá­rio” (ine­ren­te a qual­quer ad­mi­nis­tra­ção pú­bli­ca) se­ja mi­ni­ma­men­te per­cep­tí­vel pa­ra o po­vo e que não le­ve seus ali­a­dos po­lí­ti­cos ao de­ses­pe­ro. O fa­mo­so “bem a con­ta-go­tas” pre­ci­sa ser ma­xi­mi­za­do e pro­pa­ga­do pa­ra que o po­vo per­ce­ba o es­for­ço do go­ver­no, ser­vin­do tam­bém co­mo re­a­vi­va­men­to da es­pe­ran­ça dos ali­a­dos. Na épo­ca de Ma­qui­a­vel e na an­ti­gui­da­de, a re­a­li­za­ção des­sas ope­ra­ções era bem mais com­pli­ca­da. Ho­je em dia, os go­ver­nan­tes con­tam com um le­que bem mai­or de fer­ra­men­tas ad­mi­nis­tra­ti­vas pa­ra per­su­a­dir o elei­tor e as for­ças po­lí­ti­cas que os cer­cam. Mes­mo as­sim, mui­tos de­les aca­bam co­me­ten­do o er­ro do de­se­qui­lí­brio, tão bem ilus­tra­do pe­lo ca­so de Per­ti­nax, e aca­bam sen­do “mor­tos” pe­los ad­ver­sá­rios, se­não pe­los pró­prios com­pa­nhei­ros.

Fonte:Jornalopção

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