segunda-feira, 8 de maio de 2017

História Hoje: Nascia há 548 anos Maquiavel, o filósofo que ensinou a governantes a arte do poder

"Quando você tiver de fazer algum mal a alguém, faça-o todo de uma só vez. A dor será intensa, mas apenas uma. Já o bem, faça-o em parcelas. O favorecido ficará alegre e grato a você várias vezes".

Há 548 anos, o mundo receberia de braços abertos e veria crescer e se desenvolver o pensamento maquiavélico. Niccolò di Bernardo dei Machiavelli. Esse era o nome de batismo de Nicolau Maquiavel, escritor, diplomata e político italiano, que nasceu no dia 3 de maio de 1469, em Florença.

Por volta de 1500, Maquiavel escreveu O Príncipe, um título aparentemente romântico para uma espécie de tratado sobre a arte de governar.


Pesquisa, texto e edição: Patrícia Leite
Voz de Maquiavel: Gabriel Pinheiro
Sonoplastia: Messias Melo

História Hoje: Programete sobre fatos históricos relacionados a cada dia do ano. É publicado de segunda a sexta-feira. Acesse aqui as edições anteriores.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Existe uma banalização da justiça contra os poderosos?

Os novos e os antigos poderosos dos Executivos e Legislativos não se cansam de reclamar - os órgãos de fiscalização, notadamente os promotores públicos, estariam exagerando no cumprimento de suas funções. E estão. Emitem ofícios, abrem processos, debatem na imprensa, processam e, especialmente, prendem aqueles que, até há pouco, agiam e se sentiam "donos do poder". O tempo dos ultrapoderosos do Executivo passou...
As novas atribuições dos promotores pertenciam aos delegados de polícia e aos membros dos legislativos. Foram tão somente ampliadas e modernizadas. A polícia civil se encarregava da prisão dos poderosos. Aos vereadores, deputados e senadores era atribuído o poder de fiscalizar os membros das prefeituras, governos estaduais e federal. Era. Na prática, isso deixou de existir.
Perderam os poderes porque não os praticaram. Pior. Muitos, deles, se locupletaram.
Partidarizaram, esqueceram de prestar serviço para a sociedade e foram fazer genuflexões aos poderosos. Os promotores, jovens em sua maioria, ocuparam os espaços, ocuparam um vácuo que existia desde dezenas de anos. Talvez, desde sempre. Delegados e parlamentares perderam seus poderes. Provavelmente, para sempre. Enquanto corporações, estão diminuídos em suas ações. Também não gozam de credibilidade ou respeito.
Mas, afinal, existe uma banalização dos promotores de justiça contra os poderosos? A resposta é que existem exageros, no meio de acertos. São decorrentes de atos de afirmação, de gerir o que é novo. Ainda estão aprendendo e medindo suas forças reais. "Espicham" as leis para ver até onde é possível chegar. Também há o erro, esperado para quem estuda, dos exageros midiáticos. Não podem ver uma câmera de televisão ou um repórter sem emitir opiniões ou proferir sentenças, usurpando o papel dos juízes. São apenas 3 ou 4 anos de verdadeiro poder. Muito pouco tempo para eles, e parcela ponderável da população, estabelecerem os reais limites de seus poderes.
Terão de aprender a usar a arma que a sociedade lhes legou, sem perder a bala, sem desperdiçar o cacife de credibilidade que lhes foi legado. Terão de aprender a não apresentar denúncias vazias ou raquíticas. Não podem banalizar. Também não podem denunciar gregos e deixar incólumes troianos. Terão de entender que os poderosos hoje tremem com suas ações. E respeitar esse temor reverencial. Não podem desejar a extinção do poder executivo. Atualmente, uma parcela de loucura, ou de desconhecimento, acomete aqueles que ousam aceitar um cargo de secretário municipal. 
A continuar, abandonarão os cargos, pedirão demissão. As notícias que chegam dos bastidores da administração municipal dizem que quase todos estão vivendo sob a égide do temor, alguns do terror. Há poucos dias chegaram ao porto do poder, preparam as malas para o retorno a seus lares.

O novo Maquiavel e as antigas Leis do Poder
Em sua posse com prefeito de São Paulo, João Dória, citou um autor norte americano, cujo livro de estréia, "As 48 Leis do Poder", vem sendo comparada a "O Príncipe", obra póstuma de Nicolau Maquiavel, clássico da ciência política. O livro do norte americano vem sendo considerado a "Nova Bíblia dos Políticos". É um best-seller sobre poder, estratégia e sedução. A lei mais polêmica: "destrua seus inimigos completamente", é uma das causadoras do sucesso desse livro, que vem sendo lido e usado não só por políticos, mas também por empresários e administradores. Mas também há o "Mantenha as mãos limpas". Em verdade é uma releitura de Maquiavel, uma modernização do antigo pensamento sobre o poder. Vamos a elas:

1. Não ofusque o brilho do mestre.
2. Não confie demais nos amigos, aprenda a usar os inimigos.
3. Oculte as suas intenções.
4. Diga sempre menos do que o necessário.
5. Muito depende da reputação, dê a própria vida para defende-la.
6. Chame atenção a qualquer preço.
7. Faça os outros trabalharem por você, mas sempre fique com o crédito.
8. Faça as pessoas virem até você, use uma isca, se for preciso.
9. Vença por suas atitudes, não discuta.
10. O contágio: evite o infeliz e azarado.
11. Aprenda a manter as pessoas dependentes de você.
12. Use a honestidade e generosidade seletiva para desarmar a sua vítima.
13. Ao pedir ajuda, apele para o egoísmo das pessoas, jamais para a sua misericórdia ou gratidão.
14. Banque o amigo, aja como espião.
15. Aniquile totalmente o inimigo.
16. Use a ausência para aumentar o respeito e a honra.
17. Mantenha os outros em um estado latente de terror, cultive uma atmosfera de imprevisibilidade.
18. Não construa fortalezas para se proteger, o isolamento é perigoso.
19. Saiba com quem está lidando, não ofenda a pessoa errada.
20. Não se comprometa com ninguém.
21. Faça-se de otário para pegar os otários, pareça mais bobo do que o normal.
22. Use a tática da rendição: transforme a fraqueza em poder.
23. Concentre as suas forças.
24. Represente o cortesão perfeito.
25. Recrie-se.
26. Mantenha as mãos limpas.
27. Jogue com a necessidade que as pessoas tem de acreditar em alguma coisa para criar um séquito de devotos.
28. Seja ousado.
29. Planeje até o fim.
30. Faça suas conquistas parecerem fáceis.
31. Controle as opções: quem dá as cartas é você.
32. Desperte a fantasia das pessoas.
33. Descubra o ponto fraco de cada um.
34. Seja aristocrático ao seu próprio modo, aja como um rei para ser tratado como tal.
35. Domine a arte de saber o tempo certo.
36. Despreze o que não puder ter: ignorar é a melhor vingança.
37. Crie espetáculos atraentes.
38. Pense como quiser, mas comporte-se como os outros.
39. Agite as águas para atrair os peixes.
40. Despreze o que vier de graça.
41. Evite seguir as pegadas de um grande homem.
42. Ataque o pastor e as ovelhas se dispersam.
43. Conquiste corações e mentes.
44. Desarme e enfureça com o efeito espelho.
45. Apregoe a necessidade de mudança, mas não mude muita coisa ao mesmo tempo.
46. Não pareça perfeito demais.
47. Não ultrapasse a meta estabelecida; na vitória, aprenda a parar.
48. Evite ter uma forma definida.
Grandes escritores não morrem, presidentes são listas
Quem hoje lembra o nome do rei da França na época de Moliére? Quem era o presidente dos Estados Unidos durante a vida de Edgard Allan Poe? Quem sabe o nome do czar da Rússia enquanto vivia Dostoievski? Dostoievski ou Tolstoi são hoje mais famosos e mais presentes que Alexandre ou Nicolau número tal. Por acaso você se lembra quem era o Presidente do Brasil quando morreu Machado de Assis? Reis e presidentes são apenas listas. Poderes efêmeros e com prazo de validade em cima do código de barras. Os grandes escritores e pensadores não morrem.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

'Poder e Manipulação' dá dicas para persuadir e influenciar pessoas


Da Integridade - Quando e de que maneira se deve manter a palavra

"Poder e Manipulação" ensina a se livrar de bajuladores e a lidar com pessoas manipuladoras"O Príncipe" é um título que todos conhecem, ou pelo menos já ouviram falar. Escrito por Nicolau Maquiavel no século 16 o livro é até hoje uma referência da ciência política moderna. Na época, a obra foi concebida para ensinar um novo príncipe que, para manter o poder e o controle, era preciso agir com grande sutileza, somada à astúcia e crueldade.
De Jacob Pétry, "Poder e Manipulação"atualiza o clássico italiano com a proposta de ajudar o leitor a entender o mundo atual.
Com 176 páginas a obra se divide em 20 capítulos que tratam de temas sobre como medir a força de um líder até como escapar de bajuladores, passando por questões existências - se é preferível ser amado ou temido; ou econômicas - quando se deve ser generoso ou sovina.
O livro se vale de uma estrutura bastante clara. Em cada capítulo o autor analisa um trecho de "O Príncipe" e extrai lições para que o leitor se sinta mais bem preparado para defender-se das pessoas manipuladoras.
Pétry é jornalista, filósofo e pesquisador brasileiro radicado nos Estados Unidos. Ele também é o autor de outros livros como "O Óbvio que Ignoramos" e "Grandes Erros".
Leia abaixo um trecho de "Poder e Manipulação"
*
Capítulo 6
De O Príncipe
Qualquer pessoa entende o quanto é louvável um príncipe manter sua palavra e viver com integridade, sem astúcia. A experiência, no entanto, nos mostra que existiram príncipes e governantes que fizeram grandes obras, mas que davam uma importância mínima ao cumprimento de suas promessas. Usando da astúcia, transformaram a mente das pessoas e, com isso, superaram, enfim, aquelas que se mantiveram íntegras e leais.
A primeira coisa que o príncipe precisa saber é que há duas formas de luta: uma pelas leis; outra pela força. A primeira é a mais apropriada aos seres humanos; a segunda, aos animais. Contudo, como a primeira muitas vezes não é suficiente, em inúmeras circunstâncias, o príncipe terá de recorrer à segunda. Em função disso, é fundamental que ele saiba empregar de maneira conveniente tanto o método do homem quanto o do animal.
Isso não deveria ser desconhecido, pois foi ensinado veladamente aos príncipes por autores da Antiguidade que descreveram como Aquiles e outros heróis eternos foram entregues ao centauro Quíron (meio homem e meio animal) para serem criados e dele receberam educação em sua disciplina. Ter um preceptor meio homem e meio animal só pode significar que um príncipe, para ter a virtude e a grandeza de um herói, deve aprender a fazer uso tanto da natureza do homem quanto da natureza do animal. Uma sem a outra é a origem do desequilíbrio
e da instabilidade.

Portanto, sendo obrigado a utilizar da natureza do animal, o príncipe deve adotar as qualidades da raposa e do leão. O leão tem força, mas lhe falta esperteza. Seu poder assusta a todos, mas ele não consegue defender‑se das armadilhas. A raposa é esperta, mas não tem força. Ela tem facilidade de se livrar das armadilhas, mas não consegue defender‑se dos lobos.
Dessa forma, é preciso ter a natureza da raposa para descobrir e defender‑se das armadilhas e a do leão, para amedrontar e defender‑se dos lobos.
2.
Aqueles que apenas adotam a natureza do leão, isto é, a força e a retidão, não entendem o risco que correm e dificilmente chegarão a se consagrar no poder. Para obter êxito na busca pelo poder, embora necessite força, você não pode ser previsível como o leão. Isso o tornaria presa fácil dos inimigos. Você deve ser também astuto como a raposa.
Desse modo, um príncipe sábio não pode nem deve guardar a palavra empenhada quando isso for contra seus interesses ou quando os motivos que o forçaram a fazer a promessa deixarem de existir. Se todas as pessoas fossem boas, tal preceito seria mau e não se sustentaria por falta de legitimidade.
Mas, considerando que os indivíduos costumam ser falsos e não guardariam suas promessas com o príncipe, ele também não está obrigado a cumprir as promessas que fez a eles. Além disso, nunca faltaram desculpas aos governantes para justificar e dissimular a quebra de uma promessa.
Sobre isso, eu poderia dar incontáveis exemplos, todos demonstrando convenções e promessas que se tornaram nulas e sem efeito pela infidelidade dos que as fizeram; e dentre eles, se deu melhor aquele que melhor soube adotar as qualidades da raposa. Contudo, é necessário saber disfarçar muito bem essa natureza, tornando‑se excelente simulador e dissimulador.
Essas atitudes funcionam perfeitamente porque as pessoas se distraem com coisas tão simples e se ocupam tanto com as necessidades diárias que aquele que estiver disposto a enganar encontrará sempre a quem enganar e, não raras vezes, logo em seguida, encontrará também o perdão ou o esquecimento daquele a quem enganou.
3.
Em relação ao que afirmei acima, há um exemplo do meu tempo que não gostaria de deixar passar: o papa Alexandre VI. Não conheci ninguém que tivesse maior habilidade em prometer coisas que simplesmente não cumpria, mesmo que o fizesse com juramentos firmes e solenes.
Alexandre vi não fez outra coisa, nem pensou em fazer, a não ser enganar os outros, uma vez que encontrou sempre um número suficiente de vítimas e oportunidades para agir dessa forma. Seus enganos sempre saíram a contento porque ele conhecia muito bem a deficiência da natureza humana descrita acima e tirava o máximo proveito dela.
Ao retratar o caráter de um príncipe, haveria que se dizer que é indispensável que ele cultive somente virtudes como caridade, fidelidade, humanidade, integridade e religiosidade.
Entretanto, no mundo real, do qual tratamos aqui, o príncipe não precisa possuir todas essas qualidades; basta que aparente possui‑las. E, indo ainda mais longe, até me atreveria a afirmar que se possuísse todas essas qualidades e as usasse o tempo todo, elas, sem dúvida, lhe seriam prejudiciais, ao passo que aparentar te‑las lhe seria extremamente benéfico.
É preciso, de um lado, parecer efetivamente piedoso, fiel, humanitário, íntegro e religioso; e de outro, ter o ânimo de agir de maneira oposta quando as circunstâncias demandarem que assim o seja.
4.
Pode‑se concluir disso tudo, portanto, que um príncipe, sobretudo em início de carreira, não pode seguir todas as coisas a que são obrigados os homens tidos como bons. Mas que, ao contrário, para conservar o poder, ele é, muitas vezes, obrigado a agir contra princípios como a caridade, a fé, a humanidade e a religião.
Por isso é necessário que ele tenha uma mente disposta a voltar‑se para os rumos a que os ventos e as mudanças da sorte o impilam. E, como já deixei dito antes, não evitar ou se afastar do bem quando é possível pratica‑lo; porém, não hesitar entrar para o mal, se a isso for forçado.
O príncipe deve, contudo, ter extremo cuidado para falar apenas coisas que revelem claramente as virtudes antes apontadas - piedade, fidelidade, humanidade, integridade e religiao‑, para que ele aparente te‑las. E entre todas essas qualidades, eu diria que não há nenhuma que seja mais necessária do que a religião. É que as pessoas, em geral, julgam muito mais pelo que veem do que pelo que percebem. E todos podem ver e ouvir, porém poucos são capazes de perceber para além das aparências. Veem o que você aparenta ser, mas poucos sabem o que você realmente é e, quando se trata de um príncipe, esses poucos não possuem força suficiente para influenciar e mudar a opinião da maioria formada pelo cidadão comum.
5.
Encerro esse tema dizendo que as atitudes das pessoas, sobretudo dos príncipes, são julgadas pelos resultados que produzem, podendo estes serem bons ou ruins. Por essa razão, um príncipe deve sempre procurar vencer e conservar suas conquistas.
Os meios empregados para alcançar esses objetivos serão sempre julgados honrosos e louvados pelos vulgos que compõem a maioria e que se deixam levar facilmente pela aparência e pelos resultados alcançados, e o mundo é formado pelo vulgo. Sendo assim, não haverá lugar para a opinião da minoria se o vulgo tiver uma base segura onde se apoiar, mesmo que essa base seja feita de aparências.
Por isso, é preciso, como já disse, que toda pessoa compreenda essas coisas e entenda como elas funcionam de fato e, assim, possa precaver‑se de cair, ela própria, num universo de ilusões e aparências similar ao do vulgo.
Maquiavel
Capìtulo XVIII
De que maneiras devem os príncipes guardar a fé na palavra empenhada

-
Análise
As palavras costumam nos confundir mais do que esclarecer. Na verdade, elas não passam de uma ferramenta de comunicação externa. Raras vezes revelam o que de fato está escondido dentro das pessoas. Com facilidade elas podem ser usadas para nos bajular, enganar, persuadir e manipular.
A maioria de nós está em constante busca: tentando ser isto ou aquilo, alcançar determinado objetivo, conquistar um tipo de situação, evitar outro e assim por diante. Ao longo deste processo aprendemos que a clareza e a transparência podem revelar fraquezas e vulnerabilidades ou, ainda, despertar a mesquinharia, a inveja ou a ganância dos demais. Por isso, muitas vezes evitamos nos abrir completamente. Deixamos de falar toda a verdade, contando pequenas mentiras no intuito de nos proteger.
Superficialmente, nos esforçamos para parecer honestos, civilizados, decentes, generosos e justos. Mas sabemos que se seguirmos essas virtudes ao pé da letra, se jogarmos o jogo direta e abertamente, nossas chances de vencer serão pequenas, porque, na certa, seremos vítimas de especuladores e massacrados por adversários mais inescrupulosos.
Além disso, sabemos também que, sendo sempre honestos e diretos, insultaremos muita gente, porque a verdade, em geral, é a maior ofensa. Sendo assim, fingimos e disfarçamos. Fazemos de conta que não queremos nada. Escondemos nossa verdadeira intenção. Vivemos em duplicidade. Em vez de dizer o que verdadeiramente pensamos, falamos o que o outro quer ouvir, criando um enorme faz de conta, um teatro de aparências.
No palco, tudo parece calmo e sob controle, perfeitamente em ordem. Mas, no palco, as pessoas deixam de lado quem de fato são para representar determinados papéis. É quando as cortinas se fecham que as emoções negativas emergem. Na escuridão dos bastidores é onde os dramas são armados e a ganância, a inveja, o ódio e o desejo de domínio e manipulação reinam quase absolutas. Pare e pense sobre isso por um momento!
Se analisar suas relações por todos os ângulos possíveis, verá que esse é um processo contínuo, interminável. E a maioria de nós está satisfeita com ele, porque esse processo, no fundo, nos dá a sensação de proteção. Mas o que você não pode é, como vimos no capítulo um, ignorar as coisas como elas são.
Por isso, se você busca poder, sucesso e liderança, não seja ingênuo a ponto de se deixar conduzir apenas por palavras e aparências. Você precisa entender que a maioria dos indivíduos usa as palavras para se defender, para dissimular suas verdadeiras intenções e despistar você do que elas realmente pensam, sentem e desejam. Estudos convincentes apontam que, num processo de comunicação regular, menos de 20% do que na realidade importa é dito de forma direta, através de palavras. Repito: menos de 20%.
Portanto, a partir de hoje, empenhe‑se para conhecer as pessoas num nível mais profundo. Não se perca em distrações e aparências. Vá além das palavras dos outros. Descubra o que os motiva, qual o interesse oculto por trás do que dizem. E, como já vimos, nunca deduza superficialmente que eles possuem os mesmos valores e princípios que você ou que zelam pelas mesmas coisas que você. Porque, quase sempre, eles não pensam e não acreditam naquilo que você pensa e acredita.
É por esse motivo que a habilidade de compreender o que motiva as pessoas é a principal chave da liderança eficaz, do poder e do sucesso. Como disse no começo deste livro, se você sabe o que o outro busca, o que ele quer e precisa, a necessidade que existe por detrás de suas ambições, lágrimas, ansiedades, seus desejos e medos, você pode se oferecer para suprir essa necessidade. E isso lhe dará um poder incrível.
O problema é que poucos têm a capacidade de entender as necessidades alheias. Na maioria das vezes, apenas ouvimos aquilo que queremos ouvir. Nossa mente está confinada a um canal pequeno e estreito no qual ela projeta nossos próprios desejos através do que ouvimos. Temos uma ideia em nossa cabeça e adequamos tudo a essa ideia. Por isso, somos tão fracos na arte de seduzir, incentivar e motivar os outros.
Desse modo, se posso lhe sugerir algo, saia um pouco da sua cabeça, se desapegue por instantes das suas ideias e dos seus sonhos, das suas necessidades e obsessões pessoais e mergulhe na mente das pessoas a sua volta. Procure enxergar a interioridade delas, ir além do que elas dizem, entender e transcender o desejo vago e raso que elas manifestam, investigue a compulsão por detrás de suas ações superficiais, descubra o que elas realmente querem e ajude‑as a conquista‑lo. Se você fizer isso, obterá tudo o que quiser e muito mais. Mas não espere. Comece a colocar essa estratégia em prática hoje mesmo e observe como, com o tempo, você fará progressos tremendos na arte da persuasão e da influência.

Fonte: Folha

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Temer quer ser temido

Há um nítido paralelo entre o Príncipe que Nicolau Maquiavel (1469-1527) procurava para unir a Itália então dividida em reinos e Michel Temer, que precisa unir o Brasil, dividido entre o reino dos coxinhas e o reino dos petralhas.
A ética não precisa ser observada: "Nunca faltarão ao príncipe razões legítimas para burlar a lei". Vimos isso no episódio do impeachment.
A bondade não deve ser o fundamento de suas ações, recomenda Maquiavel, o mais adequado é saber ser bom ou mau conforme as circunstâncias: "Se puder, deve ser bom, mas se necessário deve usar da maldade, evitando sempre o meio termo".
E ainda ensina como a maldade e a bondade devem ser utilizadas:
"Faça de uma vez só todo o mal, mas o bem faça aos poucos".
Está aí a PEC 241 para confirmar que Temer prefere fazer o mal de uma vez.
Tal e qual Temer, "o príncipe busca estabilidade do cargo, busca manter-se no poder", por isso não se deve acreditar no discurso de que ele larga tudo em 2018.
Maquiavel ainda aconselha ao príncipe:
"É mais seguro ser temido do que amado". Temer tem dito que não se importa com popularidade.
"Quem engana sempre vai encontrar alguém que se deixará enganar". Aqui Maquiavel profetiza como se comportariam os brasileiros 500 anos depois.
"Governar é fazer acreditar". Mentira ou verdade, importante é fazer a população acreditar que a 241 vai tirar o país do buraco.
Maquiavel adverte, no entanto: "É fácil persuadir o povo de algo, difícil é manter essa persuasão".
"Um governante eficaz não deve ter piedade. As pessoas ofendem mais a quem amam do que a quem temem". Baseado nessa premissa Temer elabora (ou, pior, seu ministro da Justiça elabora) o Plano Nacional de Segurança, cujo nome lembra o da famigerada Lei de Segurança Nacional da ditadura de 64. Ele quer ser temido, já que amado não será.
As pessoas "não são naturalmente nem boas nem más, mas podem ser tanto uma como outra", adverte Maquiavel, por isso o Príncipe deve partir do princípio de que as pessoas são más e que na primeira oportunidade elas demonstrarão essa maldade, geralmente traindo-o.
Esse é o lado perigoso de ser o Príncipe de Maquiavel.

Fonte:Brasil247

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Geddel Vieira e o caixa dois: entre Maquiavel e Hobbes

Antonio Marcelo Jackson *
Em matéria publicada na última terça-feira (20) pelo jornal O Globorepercutida peloCongresso em Foco no dia seguinte, Geddel Vieira Lima, ministro-chefe da Secretaria de Governo e responsável pela articulação política da atual Presidência da República, afirma que o assim chamado “caixa 2” não é crime e sua argumentação se dá em virtude de um projeto enviado pelo Ministério Público Federal à Câmara dos Deputados solicitando a criminalização de tal prática. De acordo com o senhor ministro, “se pede isso, é lícito supor que caixa dois não é crime”.
A fala de Geddel Vieira traz à baila a interessante concepção de não apenas parte da classe política, mas também de um enorme contingente da sociedade brasileira, para se definir o que é e o que não é lícito. Noves fora qualquer malícia nas palavras do pecuarista e administrador de empresas baiano, o que está em jogo é saber se no conjunto de regras de convívio social e naquelas expressas em lei é necessário que se tenha a definição de uma punição para se saber que algo é impróprio ou ilegal.
Tomemos um exemplo simples. De acordo com a “lógica” expressa acima, pode-se pressupor que, numa Constituição – ou Código de Leis Complementar –, se existir a expressão de que “a vida deve ser preservada”, mas esta não estiver acompanhada de outra afirmação, tal como, “nesse sentido, o assassinato de alguém é definido como crime”, isso indicará que a morte não natural de qualquer pessoa promovida pela violência de outra jamais deverá ser interpretada como algo ilícito ou por completo ilegal.
Nessa fórmula “geddeliana” – com o perdão pelo neologismo e com todo o respeito ao senhor ministro – cabem inúmeras situações que, se fossem descritas aqui, ocupariam inúmeras edições. Porém, para além de qualquer citação ou análise das consequências de tal entendimento quanto à leitura particular de Vieira Lima perante o projeto do MPF, nos é possível lançar mão de como determinadas concepções da teoria e filosofia política e jurídica podem nos auxiliar tanto para a melhor compreensão da fala e de seus fundamentos, quanto nos atentar para as consequências de tal gesto.
O primeiro aspecto nos remete inevitavelmente ao entendimento mais superficial da entrevista do ministro-chefe da Secretaria de Governo, a saber que “se não está na Lei, então é permitido”. Os juristas mais atentos lembrarão das distinções entre os sistemas de “Common Law” e “Civil Law”.
Dito de forma bem simples, há no primeiro caso o entendimento de que a normatização e consolidação da jurisprudência contribui para uma maior segurança jurídica, visto que casos semelhantes seriam julgados a partir de decisões tomadas pelos tribunais em épocas anteriores, sem a necessidade de estarem expressos em uma legislação. Países com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos são ótimos exemplos desse sistema.
Já no segundo caso, o sistema de Civil Law, ao contrário do primeiro, indica que todas as decisões jurídicas devem estar redigidas na lei e, nesse sentido, a jurisprudência quando há deve ser interpretada como referência, e não como determinante nas decisões de um tribunal. França, Portugal e, notadamente, o Brasil vinculam-se a essa corrente.
Se isso é verdadeiro, então a primeira conclusão que se pode tirar a partir da fala de Geddel Vieira Lima é que a leitura que faz a respeito do “caixa dois” vincula-se muito mais a uma tradição jurídica do que, necessariamente, a um fundamento ético. Alguns chamarão minha atenção para os escritos de Nicolau Maquiavel apresentados há mais de quinhentos anos, quando afirma e demonstra que a política é desprovida de qualquer princípio moral e que, portanto, a fala do político baiano se justifica no cotidiano desse “ofício” ao lançar mão de uma das características de um país de Civil Law.
Contudo, não custa também lembrar que os escritos do pensador florentino dizem respeito àquele que ambiciona o poder ou que deseja manter-se no poder. Em outras palavras, para aceitarmos maquiavelicamente os termos do ministro-chefe da Secretaria de Governo, não podemos vê-lo como membro do Estado Brasileiro, mas sim como um ator da política que ambiciona manter a si e a seus pares no poder.
Ainda em perspectiva, a fala de Vieira Lima pode também ser analisada pelos escritos de Thomas Hobbes, em sua clássica obra Leviatã. De acordo com Hobbes, “os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar segurança a ninguém”. Isso porque os seres humanos apenas respeitam uma regra na medida em que a mesma promova alguma espécie de temor (uma punição, portanto). Quando isso não ocorre, a assim denominada “natureza humana” o remete a espoliação, furto ou qualquer forma de violência que lhe permita conquistar aquilo que se deseja.
Por esse ângulo, o entendimento de Geddel Vieira em relação à classe política – a que ele, inclusive, pertence – se insere naquilo que denominamos “estado de natureza hobbesiano”, ou seja, nossos prestigiados senadores, deputados federais, deputados estaduais, vereadores, presidentes da República, governadores e prefeitos somente agem de maneira ética e sem subterfúgios na relação direta de uma lei que determine uma clara punição para um ato ilícito. Como o próprio nome diz, “caixa dois” já se define como algo ilegal; porém, na lógica hobbesiana do ministro não há ilegalidade porque não há “pacto com uma espada”. Um caso a se pensar.
O que podemos concluir a partir de tudo o quer foi dito acima? Se levarmos em consideração as pesquisas de popularidade sobre a classe política, em todos os lugares do mundo, sugere-se antes de tudo que o senhor ministro repense sua opinião, visto que ela estaria presa à ideia de que a classe política está descolada da sociedade e não lhe deve qualquer explicação.
Porém, talvez a conclusão mais incômoda seja aquela que remete a fala do ministro ao universo hobbesiano. Se ele, como ministro-chefe, deveria se portar como parte efetiva do Estado brasileiro e, portanto, zelar pela paz social e a manutenção de relações éticas em todos os segmentos sociais, ao afirmar que não vê nada de ilegal no “caixa 2” ele rompe com esse fundamento e se posiciona ao lado de todos os demais que buscam tão somente a conquista do poder. Sendo isso verdadeiro, como classificar e o que esperar do Estado no Brasil atual?
*Doutor em Ciência Política; professor do Departamento de Educação e Tecnologias da Universidade Federal de Ouro Preto.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Maquiavel e a manutenção de uma hegemonia esportiva

Texto: Tiago Guioti

Quanto mais espetacularizados, massificados, mobilizadores de grandes grupos sociais e angariadores de grandes investimentos os esportes são, há a necessidade de se obter uma hegemonia esportiva. Isso vale para os atletas, equipes, comissões técnicas, dirigentes e inclusive para os meios de comunicação. Entretanto, mais difícil do que alcançar a hegemonia esportiva é mantê-la e por isso, me pauto em Maquiavel e seus fundamentos sobre Virtú Fortuna para discorrer desse processo dentro do âmbito esportivo.

Maquiavel disserta sobre Virtú e Fortuna na sua obra “O Príncipe” no qual é considerada uma manual de manutenção do poder para monarcas do século XVI. Porém, assim como “O capital” de Marx, essa obra pode ser considera muito contemporânea pois houve e há muitas similaridades entre os governantes atuais e os príncipes antigos na forma de governar seus reinos, sociedades e Estados-nação.

Desta forma, para se manter no poder, os governantes necessitam de um conjunto de qualidades e possibilidades, seja elas quais forem (boas ou más ações), cuja a aquisição o governante passa achar necessária, a fim de manter seu Estado e realizar grandes feitos. Ou seja, a pessoa que governa necessita de Virtú para vencer as incertezas e imprevisibilidades que cercam e ameaçam o seu governo, no qual essa força incerta, que pode ser natural ou humana, é caracterizada como Fortuna (destino). Assim, o dualismo entre Virtú e Fortunaé tido como uma questão de legitimidade e manutenção do poder, ao passo que quanto maior a Virtú (qualidade em manter o poder) menor ou maior controle sobre a Fortuna (imprevisibilidades que ameaçam essa manutenção).  

Levando essa ideia de manutenção do poder por Maquiavel ao esporte, vemos que a busca do poder, que neste caso é a conquista de títulos, campeonatos e etc. se revela muito mais frequente do que a manutenção do mesmo, pelo fato de tanto que o esporte é cercado por imprevisibilidades (Fortuna) e por ser, às vezes, uma roda da sorte. E é menos frequente a manutenção de uma hegemonia esportiva, que neste caso é a conquista de uma série de títulos em um determinado período, dado a dificuldade que se é de controlar os aspectos imprevisíveis do jogo (condições climáticas, local, torcida, fatores psicológicos e sociais, influência da arbitragem, adversidades inesperadas como falhas momentâneas e tantas outras) mesmo para aqueles que possuem qualidades técnicas, táticas, físicas e psicossociais (Virtú) para controlar o destino.


Temos como exemplo de manutenção de hegemonia: o Santos de Pelé; a Itália da década de 1930; o Brasil no final da década de 50 à década de 70; o Barcelona de Messi; o Palmeiras da década de 90; Boca Juniors no começo dos anos 2000; Lakers e Celtics na NBA; Chicago Bulls de Jordan; o Flamengo na NBB; Tiger Woods no golf; Federer no tênis; Schumacher na F1; Boston Red Sox no beisebol; Nova Zelândia no rugby; Brasil no vôlei de quadra e areia; Michael Phelps na natação; Usain Bolt no atletismo; Cuba no boxe; Índia no críquete; Alguns países africanos em provas de longas distância no atletismo; China no badminton.


Assim, fica claro que alguns atletas, times e nações se utilizam de suas Virtús para tentar controlar a Fortuna promovida pelo esporte a fim de manter uma hegemonia esportiva da mesma forma como é evidenciado em relação aos monarcas do século XVI, governantes e ditadores do século XX e líderes mundiais no século XXI de acordo com Maquiavel.